Eu lhe dou as costas e olho para a água, furiosa. Queria que ele fosse comigo. Sinto que ele só pensa nele mesmo e isso me deixa desapontada. Pensei que ele fosse melhor que isso.
“Então, você só se importa consigo mesmo, é isso?” eu pergunto.
Também me preocupa que ele não queira me acompanhar até a casa de meu pai; Não havia pensado nisso. Sei que Ben não vai querer ir eu gostaria de ter um pouco de proteção. Que seja. Eu ainda estou determinada. Fiz uma promessa e irei cumpri-la. Com ou sem ele.
Ele não responde e posso ver que está aborrecido.
Contemplo a água, evitando olhá-lo. À medida que a água se agita em meio ao constante barulho do motor, percebo que estou brava não somente porque estou decepcionada com ele, mas também porque eu comecei a gostar dele, a contar com ele. Eu não dependia de ninguém havia muito tempo. É um sentimento assustador depender de alguém de novo, me sinto traída.
“Brooke?”
Meu coração se alivia com o som de uma voz familiar e eu me viro para ver minha irmãzinha acordar. E Rose também. As duas são como ervilhas de uma vagem, extensões de uma única pessoa.
Eu ainda mal consigo acreditar que Bree está aqui, novamente comigo. É como um sonho. Quando ela foi sequestrada, uma parte de mim estava certa de que eu jamais a veria de novo. Cada momento em que estou com ele, sinto como se tivesse recebido uma segunda chance, estou mais determinada do que nunca a cuidar dela.
“Estou com fome,” Bree fala, esfregando seus olhos com a parte de trás de suas mãos.
Penélope senta-se no coo de Bree. Ela não pára de tremer e então levanta seu olho bom em minha direção, como se dissesse que também está faminta.
“Estou congelando,” Rose ecoa, esfregando seus ombros. Ela veste apenas uma fina camiseta e eu me sinto muito mal por ela.
Eu compreendo. Estou com fome e com frio também. Meu nariz está vermelho e eu mal posso senti-lo. Essas guloseimas que encontramos eram deliciosas, mas pouco nutritivas – especialmente em um estômago vazio. E isso aconteceu horas atrás. Penso de novo no baú de comidas, no pouco que restou e me pergunto em quanto tempo ele ficará vazio. Sei que deveria racionar a comida. Por outro lado, estamos todos passando fome e não suporto ver Bree desse jeito.
“Não sobrou muita comida,” eu digo a ela, “mas posso dar a vocês um pouquinho agora. Temos alguns biscoitos e biscoitos água e sal.”
“Biscoitos!” elas gritam em uníssono. Penélope late.
“Eu não faria isso,” ouço a voz de Logan ao meu lado.
Olho para o lado e o vejo com um olhar de desaprovação.
“Precisamos racionar.”
“Por favor!” Bree grita. “Preciso de alguma coisa. Estou com fome.”
“Eu preciso dar a ela alguma coisa,” digo firmemente a Logan, entendo sua opinião, mas fico aborrecida com sua falta de compaixão. “Eu vou dar apenas um biscoito para cada um de nós.”
“E quanto à Penélope?” Rose pergunta.
“O cachorro não vai pegar nenhuma comida nossa,” Logan retruca. “Ela tem que se virar sozinha.”
Sinto-me, mais uma vez, aborrecida com Logan, apesar de entender que ele está sendo racional. Mesmo assim, quando vejo o olhar cabisbaixo em Rose e em Bree e ouço o latido de Penélope mais uma vez, não conseguirei o deixá-la passando fome. Eu disfarçadamente lhe darei um pouco de comida da minha própria parte.
Abro o baú e dou uma olhada em nosso estoque de comida. Vejo duas caixas de biscoitos, três pacotes de biscoitos água e sal, vários sacos de ursinhos de gelatina e meia dúzia de barras de chocolate. Gostaria que houvesse alguma comida mais nutritiva, não sei como faremos para isso durar, como isso será suficiente para três refeições por dia para cinco pessoas.
Eu tiro os biscoitos e dou um para cada um. Ben finalmente sai do seu lugar ao ver comida e aceita a sua porção. Ele tem círculos escuros abaixo dos olhos, como se não tivesse dormido. É penoso ver sua expressão, tão devastada pela perda de seu irmão, desvio meu olhar ao lhe entregar seu biscoito.
Vou para a frente do barco e dou a Logan a sua parte. Ele pega o biscoito e, silenciosamente, o coloca em seu bolso, claro, vai guardá-lo para mais tarde. Não sei de onde ele tira tanta força. Eu enfraqueço só de sentir o cheiro de biscoitos de chocolate. Sei que eu deveria racionar comida também, mas não consigo. Mordo um pedaço pequeno, decidida a guardá-lo para mais tarde – mas é tão delicioso que não consigo me conter – eu o devoro inteiro, deixo apenas um pedacinho, o qual reservo para Penélope.
A comida me faz sentir tão bem. O açúcar sobe a minha cabeça e atravessa meu corpo, gostaria de poder comer mais uma dúzia. Respiro fundo quando meu estômago reclama, tentando me controlar.
O rio começa a se estreitar, as margens se aproximam uma da outra à medida que rio serpenteia. Estamos perto de terra firme e fico bem atenta, analisando a margem, à procura de qualquer sinal de perigo. Quando fazemos uma curva, olho para minha esquerda e vejo, no alto de um penhasco, as ruínas de uma antiga fortificação, agora bombardeada. Fico chocada quanto percebo o que era antes.
“A Academia Militar,” Logan fala. Ele deve ter notado ao mesmo tempo que eu.
É impactante ver que este bastião da força americana é agora apenas uma pilha de destroços, seu mastro da bandeira está retorcido, pendurado sobre o Hudson. Quase nada é igual ao que já foi antes.
“O que é isso?” Bree pergunta com os dentes batendo. Ela e Rose vieram para a frente do barco, ao meu lado, Bree observa a fortificação, seguindo meu olhar. Não quero falar para ela.
“Não é nada, querida,” eu respondo. “Só uma ruína.”
Coloco meu braço em volta dela e a aproximo de mim, envolvo Rose com meu outro braço e também a deixo mais perto. Tento esquentá-las, esfregando seus ombros o melhor que posso.
“Quando nós iremos para casa?” Rose pergunta.
Logan e eu trocamos olhares. Eu não tenho ideia de como responder.
“Não iremos para casa,” eu digo a Rose, o mais gentilmente que consigo, “mas estamos à procura de um novo lar.”
“Nós vamos passar por nossa antiga casa?” Bree pergunta.
Eu hesito. “Sim,” eu respondo.
“Mas não vamos ficar por lá de novo, certo?” ela indaga.
“Certo,” eu falo. “É muito perigoso morar lá agora.”
“Não quero morar outra vez naquele lugar,” ela fala. “Odiava este lugar. Mas não podemos simplesmente deixar Sasha lá. Vamos passar por lá e enterrá-la? Você prometeu.”
Penso na minha discussão com Logan.
“Você está certa,” eu digo gentilmente. “Eu prometi mesmo e sim, iremos parar.”
Logan se afasta, claramente irritado.
“E depois?” Rose pergunta. “Para onde iremos depois?”
“Continuaremos rio acima,” eu explico. “Até onde ele nos levar.”
“E onde o rio termina?” ela questiona.
É uma boa pergunta e eu a interpreto como uma questão mais profunda. Como terminará tudo isso? Com nossa morte? Com nossa sobrevivência? Será que terá fim? Existe algum fim à vista?
Não tenho a resposta.
Eu me viro, me ajoelho e olho nos seus olhos. Preciso dar esperança a ela. Algum incentivo para viver.
“Termina em um lindo lugar,” eu falo. “No lugar para onde vamos, tudo está bem de novo. As ruas são tão limpas que chegam a brilhar e tudo é perfeito e seguro. Há mais gente lá, pessoas amáveis que irão nos acolher e nos proteger. Há comida também, comida de verdade, e você pode comer o tempo inteiro. É o lugar mais lindo que você pode imaginar.”
Os olhos de Rose se arregalam.
“É verdade?” ela pergunta.
Eu aceno que sim com a cabeça. Aos poucos, ela abre um enorme sorriso.
“Quanto tempo vamos demorar a chegar lá?”
Eu sorrio. “Não sei, querida.”
Mas Bree é mais cética que Rose.
“É verdade mesmo?” ela pergunta, baixinho. “Existe mesmo um lugar assim?”
“Existe,” eu falo, tentando parecer convincente. “Não é mesmo, Logan?”
Logan olha para nós, diz que sim a cabeça e logo desvia o olhar. No final das contas, é ele quem acredita no Canadá, acredita que há uma terra prometida. Como ele poderia negar agora?
O Hudson faz curvas e vai ficando estreito e depois largo de novo. Finalmente, entramos em um território familiar. Passamos por locais que eu conheço, estamos cada vez mais próximos da casa de papai.
Viramos uma curva e avistamos uma pequena ilha desabitada, apenas um pedaço de rochas sobressalente. Nela, há um farol, sua lâmpada foi estilhaçada há muito tempo, sua estrutura agora não passa de uma fachada.
Passamos por outra curva e, ao longe, avisto uma ponte que cruzei apenas alguns dias atrás, enquanto perseguia os comerciantes de escravos. Ali, no meio da ponte, posso ver o local da explosão, a enorme cratera, como se uma bola de demolição tivesse sido jogada bem no centro. Lembro-me de quando Ben e eu estávamos de moto, correndo, e quase caímos da ponte. Mal posso acreditar. Estamos quase chegando.
Isto me faz pensar em Ben, me faz lembrar em como ele salvou minha vida naquele dia. Eu me viro para olhar para ele, que está encarando a água, melancólico.
“Ben?” Eu chamo.
Ele olha em minha direção.
“Lembra-se dessa ponte?”
Ele se vira para olhar e vejo medo em seus olhos. Ele se lembra.
Bree me cutuca. “Tudo bem se eu der a Penélope um pouco do meu biscoito?” ela pergunta.
“Eu também posso?” Rose ecoa.
“Mas é claro que sim,” eu respondo em voz alta para que Logan ouvir. Ele não é o único que pode mandar aqui e iremos fazer o que quisermos com nossa comida.
A cachorra, no colo de Rose, se anima, como se entendesse. É incrível. Nunca vi um animalzinho tão esperto.
Bree se inclina para lhe dar um pedacinho de biscoito, mas eu encosto em sua mão, impedindo-a.
“Espere,” eu falo. “Se você vai alimentá-la, ela devia ter um nome, não acha?”
“Mas ela não tem coleira,” Rose diz. “O nome dela pode ser qualquer um.”
“Ela é nossa cachorrinha agora,” eu falo. “Dê a ela um novo nome.”
Rose e Bree trocam olhares, animadas.
“Como deveríamos chamá-la?” Bree pergunta.
“Que tal Penélope?” Rose sugere.
“Penélope!” Bree grita. “Adorei.”
“Eu também gostei,”eu concordo.
“Penélope!” Rose chama a cachorrinha com um berro.
Surpreendentemente, a cachorrinha se vira para Rose quando é chamada, como se seu nome fosse Penélope desde o sempre.
Bree sorri ao dar-lhe um pedaço de seu biscoito. Penélope o pega e o engole de uma só vez. Bree e Rose riem histericamente quando Rose dá o resto de seu biscoito. Ela também o morde e então eu lhe entrego o último pedacinho do meu. Penélope olha para nós, entusiasmada, trêmula, e late três vezes.
Todas nós rimos. Por um momento, eu quase me esqueço de nossos problemas.
Mas, então, ao longe, por cima do ombro de Ben, eu avisto alguma coisa.
“Ali,” eu falo para Logan, me elevando e apontando para nossa esquerda. “É para lá que precisamos ir. Vire aqui.”
Eu vejo a península onde Ben e eu passamos de moto, sobre o gelo do Hudson. Fico com aflição ao pensar nisso, penso em quão louca aquele perseguição fora. É inacreditável que eu ainda esteja viva.
Logan olha por cima de seu ombro para checar se há alguém nos seguindo e então, relutantemente, ele vai desacelerando aos poucos, fazendo a curva para nos levar à margem.
Inquieta, eu olho ao meu redor com cautela quando alcançamos a orla da península. Nós deslizamos junto a ela, fazendo uma curvatura para dentro da ilha. Estamos perto da margem agora, após passarmos por uma torre de água desmoronada. Continuamos em frente e logo passamos perto das ruínas de uma cidade, em direção ao seu centro. Catskill. Há prédios queimados em ambos os lados, parece que foram atingidos por um bombardeio.
Estamos todos atentos à medida que abrimos nosso caminho lentamente pela enseada, indo terra adentro, a costa está a poucos metros de distância, cada vez mais estreita. Estamos expostos a uma emboscada e eu percebo que, inconscientemente, estou com minha mão sobre meu quadril, segurando minha faca. Percebo que Logan faz o mesmo.
Olho por cima de meu ombro para ver Ben; mas ele ainda se encontra em estado catatônico.
“Onde está o caminhão?” Logan pergunta, há nervosismo em sua voz. “Eu não irei terra adentro, digo-lhe isso desde já. Se qualquer coisa acontecer, precisaremos voltar ao Hudson, e rápido. É uma armadilha mortal,” ele fala, olhando com receio para as margens.
Eu faço o mesmo. Mas a orla está vazia, desolado, congelada, sem ninguém à vista, até onde consigo enxergar.
“Vê ali?,” eu falo, apontando. “Aquele galpão enferrujado? Está dentro dele.”
Logan percorre mais uns trinta metros e então vira em direção ao galpão. Há um cais velho e destruído, onde Logan consegue atracar o barco, a apenas alguns metros da margem. Ele silencia o motor, pega a âncora e a atira para fora do barco. Depois, pega uma corda, faz um laço em uma ponta e o atira em um poste de metal enferrujado. O laço se fixa e Logan puxa a corda, apertando o nó, para que possamos alcançar o cais.
“Nós vamos sair?” Bree pergunta.
“Eu, sim,” respondo. “Espere por mim, aqui, no barco. É muito perigoso para você ir. Eu voltarei logo. Vou enterrar Sasha. Eu prometo.”
“Não!” ela grita. “Você prometeu que nunca mais iríamos nos separar. Você prometeu! Você não pode me deixar aqui sozinha! NÃO PODE!”
“Eu não irei deixá-la sozinha,” eu digo, meu coração se partindo. “Você vai ficar aqui com Logan, Ben, e Rose. Você estará perfeitamente segura. Eu prometo.”
Mas, para minha surpresa, Bree se levanta, salta por cima da corda, passando pela margem de areia e aterrissa, na neve.
Ela fica em pé na terra, com as mãos nos quadris, me encarando, desafiante.
“Se você for, eu vou também,” ela exige.
Eu respiro fundo ao ver que ela está determinada. Sei que, quando ela quer, ela é teimosa.
Será muita responsabilidade levá-la comigo, mas, tenho que admitir, uma parte de mim se sente bem em tê-la ao meu lado o tempo todo. Se eu tentar convencê-la do contrário, só irei gastar mais tempo.
“Tudo bem,” eu falo. “Mas fique perto de mim o tempo inteiro. Promete?”
Ela assente com a cabeça. “Prometo.”
“Eu tenho medo,” Rose fala, olhando de olhos arregalados para Bree. “Eu não quero sair do barco. Prefiro ficar aqui com a Penélope. Pode ser?”
“Eu quero que você fique,” eu lhe respondo, silenciosamente recusando-me a levá-la junto.
Eu me viro para Ben e ele me encara com seus olhos melancólicos. Seu olhar me faz querer olhar para outro lugar, mas eu me forço a não fazê-lo.
“Você vem?” eu pergunto. Queria que dissesse que sim. Estou chateada por Logan preferir ficar aqui, por me decepcionar, eu certamente precisarei de ajuda.
Mas Ben, ainda claramente em choque, apenas me encara de volta. Ele me olha como se não entendesse. Pergunto-me se ele realmente compreende o que está acontecendo ao seu redor.
“Você vem?” eu pergunto com mais firmeza. Não tenho paciência para isso.
Aos poucos, ele balança a cabeça, recusando. Ele está fora de si, eu tento perdoá-lo – mas é difícil.
Viro-me para sair do barco e saltar para a margem. É uma sensação boa ter os pés em terra firme.
“Esperem!”
Vejo Logan se levantar do assento do motorista.
“Eu sabia que alguma coisa assim iria acontecer,” ele fala.
Ele anda pelo barco, recolhendo suas coisas.
“O que você está fazendo?” eu pergunto.
“O que você acha?” ele retruca. “Não vou deixar vocês duas irem sozinhas.”
Meu coração se enche de alívio. Se eu fosse sozinha, não estaria tão preocupada – mas estou muito feliz de ter outra pessoa para me ajudar a tomar conta de Bree.
Ela salta do barco para a margem.
“Estou te falando agora que isto é uma ideia estúpida,” ele diz, ao ficar ao meu lado. “Deveríamos continuar indo em frente. Logo irá anoitecer. O Hudson pode congelar. Poderíamos ficar presos aqui. Sem falar dos comerciantes de escravos. Você tem 90 minutos, entendeu? 30 minutos para ir, 30 minutos para ficar lá e 30 minutos para voltar. Sem exceções de qualquer tipo. Ao contrário, partirei sem você.”
Olho de volta para ele, impressionada e grata.
“Fechado,” eu falo
Penso em todo esse sacrifício que ele fizera, e começo a sentir algo a mais. Por trás de toda sua postura, começo a sentir que Logan realmente gosta de mim. Ele não é tão egoísta quanto eu havia pensado.
Quando estamos quase partindo, ouço uma movimentação no barco.
“Esperem!” Ben grita.
Eu me viro para encará-lo.
“Você não podem me deixar aqui sozinho com Rose. E se alguém vier? O que eu deveria fazer?”
“Tome conta do barco,” Logan responde, virando-se para ir embora.
“Eu não sei pilotá-lo!” Ben berra. “Eu não tenho nenhum arma!”
Logan se vira mais uma vez, aborrecido, pega uma de suas pistolas da faixa em sua coxa e arremessa na direção de Ben, atingindo-o em cheio no peito, deixando-o confuso.
“Talvez você aprenda como utilizá-la,” Logan fala com desdém ao dar suas costas.
Fico observando Ben, parado ali, parecendo tão indefeso e assustado, segurando uma arma que ele sequer sabe manejar. Parece completamente apavorado.
Gostaria de confortá-lo. Dizer-lhe que tudo ficará bem e que voltaremos logo. Mas, quando olho para a vasta montanha que nos espera, pela primeira vez, não estou tão certa de que vai ser assim.
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