Nunca pensara na possibilidade de ter uma relação que pudesse significar alguma coisa. Como podia comprometer-se com alguém se não sabia quem era? Por isso, não era de estranhar que os seus sentimentos se tivessem transtornado ao sentir uma atração assim por um homem que era o seu patrão e que, além disso, era um príncipe.
Helios não tinha essas inibições.
Despira-a mil vezes com o olhar e muito antes de ter tocado nela.
Até uma tarde, quando estavam a falar na sala mais pequena da exposição, ela num extremo e ele, no outro, passar, numa décima de segundo, de estar imóvel a mexer-se, a chegar até ela com quatro passos e abraçá-la.
E fora só isso. Estivera ao seu dispor e ele, ao dela.
Os três meses que tinham passado juntos tinham sido um sonho. A sua relação fora fisicamente intensa, mas também surpreendentemente natural. Não houvera expectativas nem inibições, só paixão.
Devia ter sido fácil desligar-se.
Os olhos que a tinham despido milhares de vezes dirigiram-se para Pedro para lhe indicar que podia falar dos assuntos gerais do museu. Estava a organizar-se uma exposição muito especial, mas, mesmo assim, o museu em geral tinha de continuar a manter o nível elevado de sempre.
O humor de Helios, que costumava ser agradável, estava a alterar todos e Pedro, claramente nervoso, examinou os pontos do dia a toda a velocidade e acabou a comentar que, naquela quinta-feira, precisam que alguém substituísse uma das guias. Amy ofereceu-se. A quinta-feira era o seu único dia de folga dessa semana e adorava guiar grupos de visitas sempre que podia. Uma das coisas de que mais gostava no museu era da colaboração. Todos ajudavam quando era preciso. Era uma forma de fazer as coisas que começava no topo, no próprio Helios, ainda que, nesse dia, não houvesse rasto desse espírito.
– Antes de nos irmos embora – comentou Pedro, no fim reunião –, lembro-vos de que têm de entregar os menus para a quarta-feira seguinte antes de sexta-feira.
Helios, como agradecimento aos empregados por todo o trabalho que tinham feito pela exposição, organizara um jantar para todos antes de começarem as férias de verão. Era o típico gesto generoso dele e um ato social a que tivera muita vontade de ir, ainda que, nesse momento, odiasse a ideia de sair uma noite com Helios e os seus colegas.
O alívio foi evidente quando a reunião acabou. Ninguém ficou, como costumava ser habitual, e todos se levantaram e foram precipitadamente para a porta.
– Amy, por favor, quero dizer-te uma coisa.
A voz profunda de Helios ouviu-se por cima dos passos apressados. Ela parou a uns centímetros da porta, fez um ar inexpressivo e virou-se.
– Fecha a porta.
Fechou-a e voltou a sentar-se à frente dele, embora tentasse afastar-se o máximo possível.
Nada era suficientemente longe. Esse homem gotejava testosterona… e também gotejava desejo de vingança.
O coração saía-lhe do peito, mas cerrou os dentes e cruzou os braços. Mesmo assim, não pôde evitar observá-lo fixamente. A corrente de prata brilhava na base do pescoço, a corrente que lhe tocara nos lábios tantas vezes quando faziam amor.
Enquanto olhava para ele e se questionava quando ia falar, percebeu que a observava com a mesma intensidade e sentiu a boca seca.
– Estiveste bem em casa da Greta? – perguntou ele.
– Sim, obrigada – respondeu ela. – Como soubeste que estive lá?
– Pelo GPS do teu telemóvel.
– O quê? Espiaste-me?
– És a amante do herdeiro ao trono de Agon. A nossa relação é um segredo bem conhecido e não arrisco o que é meu.
– Já não sou tua – replicou ela, levada pela fúria. – Seja qual for o dispositivo que puseste, já podes desligá-lo.
Amy pôs a mala na mesa, tirou o telemóvel e atirou-lho, que o apanhou com uma mão e se riu. Embora fosse uma gargalhada sem vontade.
– Não há nenhum dispositivo. – Helios devolveu-lhe o telemóvel. – Fez-se através do teu número.
– Para de o fazer, tira-o do teu sistema ou seja o que for.
Observou-a atentamente. Essa imobilidade tirava-a do sério. Helios nunca estava imóvel, tinha energia para iluminar o palácio todo.
– Porque te foste embora?
– Para me afastar de ti.
– Não pensaste que me preocuparia?
– Pensei que estarias tão ocupado a selecionar a tua esposa que nem sequer perceberias.
– Ah – ele sorriu finalmente –, estavas a castigar-me…
– Não – negou ela, com firmeza. – Estava a afastar-me porque sabia que esperarias ir para a cama comigo depois de teres passado a noite à procura de esposa.
– E pensaste que não serias capaz de resistir.
Amy corou e Helios sentiu um arrebatamento de satisfação ao verificar que acertara. A sua amante bonita e apaixonada estivera ciumenta.
Amy, esbelta, feminina e com o cabelo loiro, certamente, era a mulher mais bonita que conhecera. Um escultor não hesitaria em representá-la como Afrodite. Bulia-lhe o sangue só de a ver, mesmo que usasse, como naquele momento, uma saia azul e um top recatado.
No entanto, também tinha algo que não costumava ter, umas sombras escuras por baixo dos olhos castanhos, os lábios secos e a cútis pálida… E ele era o motivo.
Sentiu emoção só de pensar nisso. Fosse qual fosse o castigo que quisera impor-lhe por ter desaparecido uns dias, saíra-lhe o tiro pela culatra.
Nunca lhe falaria da fúria que o dominara quando vira a caixa à frente da sua porta.
O que lhe recordava que…
Pegou num envelope grosso e aproximou-o por cima da mesa. Quando não conseguira conter a raiva, destruíra a caixa, partira os frascos e arruinara os livros, mas as joias tinham-se salvado.
Ela semicerrou os olhos, esticou uma mão elegante e abriu-o com cautela. Cerrou os dentes quando viu o que havia lá dentro. Voltou a pousar o envelope na mesa e levantou-se.
– Não as quero.
– São tuas e ofende-me que mas devolvas.
– E tu ofendes-me ao dar-mas quando estás prestes a pôr um anel de noivado no dedo de outra mulher – replicou ela, sem pestanejar.
Ele também se levantou e aproximou-se. Abraçou-a até ter a sua cabeça no peito. Era demasiado forte e ela não conseguia escapar dele, mesmo que tentasse. Além disso, ele sabia que essas tentativas não significavam nada.
Sentia o seu calor. Queria estar entre os seus braços.
Inclinou a cabeça para trás com a respiração acelerada. Ele viu que as pupilas se toldavam com uma fúria que fez com que o sangue bulisse.
– Não fiques ciumenta – murmurou Helios, apertando-a com mais força. – O meu casamento não muda o que sinto por ti.
Mordeu o lábio inferior carnudo e o olho esquerdo tremeu com uma amargura que nunca vira.
– Mas muda o que sinto por ti.
– Mentirosa. Não podes negar que continuas a desejar-me. – Tocou-lhe na face com a dele e sussurrou-lhe ao ouvido. – Há uns dias, sem ir mais longe, gritavas o meu nome e ainda tenho os arranhões nas costas.
Ela afastou a cabeça.
– Isso foi antes de saber que procuravas uma noiva para te casares imediatamente. Não tenciono ser a tua… amante.
– Não tem nada de estranho. Os reis de Agon tiveram amantes durante gerações.
O avô fora a exceção à regra, mas só porque tivera a sorte de se apaixonar pela esposa.
Dos trinta e um reis que Agon tivera desde 1203, só alguns tinham encontrado o amor e a fidelidade com os seus cônjuges. O próprio pai, embora tivesse morrido antes de subir ao trono, tivera dúzias de amantes e, além disso, desfrutara de mostrar as suas infidelidades à esposa.
– Há gerações, os teus antepassados também esquartejavam os seus inimigos, mas é algo que já pararam de fazer.
Ele riu-se e acariciou-lhe o queixo. Era linda, mesmo sem maquilhagem.
– Não nos casamos por amor ou para ter companhia, como os outros fazem, casamo-nos pelo bem da nossa ilha. Pensa nisso como um acordo empresarial. Tu és a minha amante, és a mulher com quem quero estar.
A sua mãe fora desgraçada nesse sentido. Já amava o pai quando se casaram e esse amor acabara por a devastar muito antes de morrerem naquele acidente de viação.
Nunca causaria a ninguém a dor que o pai causara. Tinha de se casar, mas não disfarçava o que queria: Uma esposa que lhe proporcionasse a próxima geração de herdeiros. Não haveria sentimentos nem expectativas de fidelidade. Seria uma união baseada no dever e em mais nada.
Amy observou-o fixamente e em silêncio durante um instante, enquanto procurava alguma coisa, embora ele não soubesse o que esperava encontrar.
Baixou a cabeça para lhe beijar os lábios que ela separara, mas afastou-se e mal se tocaram.
– Falo a sério, Helios. Acabámos. Não serei a tua amante – repetiu ela, num sussurro.
– A sério…?
– Sim.
– Então, porque continuas aqui? Porque sinto o calor da tua respiração na cara?
Passou-lhe os lábios pela face, agarrou-a pelo rabo e apertou-a contra si para que sentisse como a desejava. Ela gemeu levemente.
– Vês? – Helios mordeu-lhe o lóbulo da orelha com delicadeza. – Ainda me desejas, mas estás a castigar-me.
– Não. Eu…
– Psiu… – Tapou-lhe os lábios com um dedo. – Ambos sabemos que poderia possuir-te neste momento e que não te oporias.
Os seus olhos deixaram escapar um brilho ardente, mas ergueu o queixo com rebeldia.
– Vou dar-te cinco segundos para que te vás embora – continuou ele, falando em voz baixa. – Se, dentro de cinco segundos, não te tiveres ido embora, vou levantar-te saia e fazer amor contigo em cima desta mesa.
Ela tremeu. Foi um arrepio muito leve, mas ele conhecia-a tão bem que sabia o que veria nos seus olhos.
Efetivamente, toldaram-se e tinham as pupilas mais dilatadas. Via a ponta da língua entre os lábios afastados e ele sabia que, se pusesse as mãos nos seios magníficos, teria os mamilos endurecidos.
Soltou-a e cruzou os braços.
– Um…
Amy levou uma mão à boca e ao queixo.
– Dois…
Engoliu em seco sem parar de olhar para ele e ele quase conseguia sentir o seu desejo.
– Três… E quatro…
Ela virou-se e foi a correr para a porta.
– Uma semana! – exclamou ele.
Estava a meio da divisória e não deu nenhum indício de o ter ouvido, mas ele sabia que ouvira perfeitamente.
– Dentro de uma semana, matakia mou, estarás na minha cama outra vez, garanto-te.
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