Onde se metera?
Helios estava há quinze minutos no seu apartamento e Amy não atendia as chamadas. Segundo o chefe de segurança, saíra do palácio. A sua contrassenha pessoal indicava que saíra às sete e quarenta e cinco, mais ou menos quando os irmãos e ele estavam a receber os convidados.
Voltou a ligar-lhe enquanto ia ao bar e se servia de um copo generoso de gim. A chamada acabou no correio de voz. Bebeu o líquido cristalino e levou a garrafa para o escritório.
Os monitores de segurança mostravam imagens das passagens secretas, mas só ele podia vê-las. Olhou com atenção para o ecrã da câmara número três, que estava focada na porta que os ligava. Havia algo no chão que não conseguia distinguir claramente…
Foi até à porta, abriu-a e viu uma caixa. Era uma caixa cheia de frascos de perfume, joias e lembranças. Eram os presentes que dera a Amy enquanto tinham estado juntos. Amontoara-os numa caixa e deixara-a à sua porta.
O arrebatamento de fúria rasgou-o por dentro. Levantou um pé antes de saber o que estava a fazer e deu um pontapé à caixa. O vidro partiu-se e o barulho ecoou no meio do silêncio.
Não fez nada durante um bom bocado. Limitou-se a respirar fundo enquanto tremia de fúria e dominava a vontade de destruir o que restava na caixa. A violência fora a solução do pai para os problemas da vida. Sempre soubera que era algo que ele também tinha, mas, ao contrário do pai, sabia controlá-lo.
Essa fúria repentina que se apoderou dele era incompreensível.
Amy, que sabia como estava atrasada, fechou a porta do apartamento e desceu a correr as escadas que levavam ao museu do palácio. Marcou a contrassenha, esperou que a luz verde se acendesse, abriu a porta e entrou na zona privada do museu, uma zona vedada aos visitantes.
Passou ao lado da cozinha pequena para o pessoal e fez figas para que não tivessem acabado os bolos e o café. Os bougatsas acabados de fazer pelos cozinheiros do palácio, que lhes traziam todas as manhãs, tinham-se transformado na sua comida favorita.
Sentiu água na boca só de imaginar os bolos de massa fina. Esperava que restasse algum com creme. Não comera quase nada durante os dois últimos dias e, naquele momento, depois de ter conseguido dormir um pouco, estava faminta. Além disso, adormecera, apesar do despertador, e acelerou o passo enquanto subia um lance de escadas que levava à sala de reuniões.
– Lamento o atraso – desculpou-se ela, enquanto entrava com uma mão no peito. – Eu…
Não pôde acabar a frase quando viu Helios sentado à cabeceira da mesa redonda. Tinha os cotovelos apoiados na mesa e os dedos de uma mão colados aos da outra. Acabara de se barbear e, embora estivesse vestido informalmente, com uma camisola verde de gola redonda, irradiava um poder avassalador, um poder que, nesse instante, estava concentrado nela.
– Ainda bem que nos acompanha, menina Green – comentou ele, num tom equilibrado. – Sente-se.
Ela, desassossegada ao vê-lo ali, pestanejou várias vezes e respirou fundo. Helios era o presidente do museu do palácio, mas não participava na gestão quotidiana. Só fora uma vez à reunião das terças-feiras durante os quatro meses que ela trabalhara lá.
Ontem à noite, quando voltara ao palácio, soubera que teria de o ver em breve, mas esperara que lhe desse uns dias. Porque tivera de aparecer nesse dia? Era a primeira vez que se atrasava e tinha um aspeto horrível.
Além disso, para cúmulo, o único lugar livre era mesmo à frente dele. Afastou a cadeira da mesa e sentou-se com as mãos no colo para que não se visse que estavam a tremer. Greta, uma das conservadoras e a melhor amiga que tinha na ilha, estava sentada ao seu lado. Segurou-lhe a mão e apertou-a com delicadeza. Greta sabia tudo.
No centro da mesa, estava a bandeja com bougatsas que tanto desejava. Restavam três, mas perdera todo o apetite e o coração acelerava de tal forma que ecoava por todo o corpo.
Greta serviu-lhe uma chávena de café e Amy agradeceu-lhe.
– Estávamos a falar das obras de que continuamos à espera para a exposição do meu avô – continuou Helios.
O museu do palácio de Agon era muito famoso e vinham especialistas de todo o mundo, o que fazia com que os empregados falassem uma mistura de línguas. Para o simplificar, o inglês era a língua oficial em horário de trabalho.
Amy pigarreou e tentou ordenar as ideias.
– As estátuas de mármore estão a caminho vindas de Itália e deviam chegar amanhã de manhã ao porto.
– Há alguém para as receber?
– O Bruno vai mandar-me uma mensagem assim que entrarem nas águas de Agon. – Amy referia-se a um dos conservadores que voltaria de Itália com as estátuas. – Irão assim que nos comunicarem. Os motoristas foram avisados e está tudo organizado.
– E as obras do museu grego…?
– Chegarão na sexta-feira.
Helios sabia tudo isso. A exposição era uma ideia dele e tinham trabalhado juntos nela.
Amy chegara a Agon em novembro como parte de uma equipa do Museu Britânico que emprestava obras ao museu do palácio. Ela, durante aqueles dias na ilha, tornara-se amiga de Pedro, o diretor do museu. Embora ela não soubesse no seu momento, ficara impressionado com os seus conhecimentos sobre Agon e, sobretudo, com a tese de doutoramento sobre a arte minoica e a sua influência na cultura de Agon. Pedro propusera que organizasse a exposição do aniversário.
Essa proposta fora como um sonho tornado realidade e uma honra imensa para alguém com tão pouca experiência. Amy, que só tinha vinte e sete anos, compensava a experiência que não tinha com entusiasmo.
Também aprendera, quando tinha dez anos, que a família feliz e perfeita que lhe parecera o natural não era como a tinham feito acreditar. Ela também não era o que a tinham feito acreditar. O pai era o pai biológico, mas os irmãos eram apenas meios-irmãos. A mulher que a tivera era da ilha de Agon e metade do seu ADN era… agonita.
Desde que descobrira, para seu espanto, sentira-se fascinada com tudo o que estava relacionado com Agon. Devorara livros sobre o seu passado minoico e a sua transição para a democracia. Apaixonara-se pelas histórias sobre as guerras. Estudara os mapas, reparara tanto nas montanhas, nas praias e nos mares que conhecia tão bem a sua geografia como a do seu próprio país.
Agon transformara-se numa obsessão.
A história dela estava na história de Agon, assim como a chave para entender quem era realmente. Nunca poderia ter imaginado que teria a oportunidade de passar nove meses lá. Era como se o destino estivesse a dar-lhe o empurrãozinho de que precisava para encontrar a mãe. A mulher que a tivera estava ali, naquela ilha de meio milhão de habitantes.
Pensara nela durante dezassete anos e não parara de se questionar se se pareceria com ela, se teria a mesma voz, se se arrependia de alguma coisa… Envergonhava-se do que fizera? Com certeza que sim. Como seria possível que alguém fizesse o que Neysa Soukis fizera e não estivesse envergonhada?
Encontrara-a depressa, mas como ia apresentar-se? Essa fora a grande pergunta. Não podia aparecer um dia à sua porta porque, certamente, lha fecharia na cara e não conseguiria as respostas que queria. Pensara em escrever uma carta, mas também não soubera o que dizer. «Lembrava-se dela? Teve-a consigo durante nove meses e, depois, ignorou-a. Podia, por acaso, dizer-lhe o motivo?»
As redes sociais, graças a Greta, tinham sido frutíferas. Neysa não as usava, mas encontrara um meio-irmão. Tinham estabelecido uma comunicação incipiente e esperara que ele fosse uma ponte entre elas.
– Organizaste o transporte para sexta-feira? – perguntou Helios, com um olhar sombrio.
– Sim, está tudo organizado – repetiu ela. – Estamos mais adiantados do que o previsto.
– Tens a certeza de que a exposição estará organizada a tempo para o baile?
Perguntou-o num tom despreocupado, mas mostrava algo implacável e um ceticismo que não mostrara antes.
– Sim.
Amy cerrou os dentes para conter a dor e a raiva.
Estava a castigá-la. Devia ter atendido alguma das suas chamadas. Seguira o caminho dos covardes, fugira do palácio com a esperança de, depois de uns dias afastada dele, conseguir reunir a força de que precisava para resistir. A melhor forma, a única forma de parar de o desejar era passando a síndrome de abstinência como pudesse. Tinha de resistir, não podia ser a… outra.
Mesmo assim, não podia ter imaginado que lhe doeria fisicamente voltar a vê-lo… e doía atrozmente.
Helios entrevistara-a antes de a contratarem. A exposição do aniversário era a sua prioridade absoluta e quisera certificar-se de que o organizador era o que tinha mais afinidade com a ilha.
Felizmente, Pedro e ele tinham concordado que ela era a melhor candidata. Alguns meses mais tarde, quando jaziam saciados nos braços um do outro, dissera-lhe que o convencera por causa da sua paixão e entusiasmo e porque soubera que se entregaria à tarefa como merecia.
Conhecer Helios… Não fora como imaginara, não era o príncipe rígido, pedante e presunçoso que esperava.
A atração fora imediata, como uma reação química que não conseguira controlar. Surpreendera-a com a guarda em baixo, embora não tivesse nenhuma ilusão. Era um príncipe, mas, além disso, era poderoso e desmesuradamente atraente. Não pensara que essa atração pudesse ser recíproca, nem no seu sonho mais disparatado, mas fora.
Participara mais na exposição do que ela previra e vira-se muitas vezes a trabalhar sozinha com ele e aquele fogo ofegante que a queimara por dentro crescera sem que ela soubesse o que fazer.
As aventuras no local de trabalho eram o pão nosso de cada dia, mesmo no mundo erudito das antiguidades, mas nunca a tinham tentado. Gostava tanto do seu trabalho que a absorvia por completo. O seu trabalho dava-lhe um objetivo e uma razão de ser. Trabalhar com objetos antigos, ver como tinham evoluído as técnicas e os costumes, demonstravam-lhe que o passado não tinha de ser o futuro. O que a mãe biológica fizera não tinha de a condicionar, mesmo que percebesse que o seu comportamento era como um estigma invisível que trazia com ela.
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