—Acabou de soffrer! suspirou Rubião.
Em seguida, attentando na noticia, viu que fallava de um homem que tinha apreço, consideração, a quem se attribuia uma peleja philosophica. Nenhuma allusão a demencia. Ao contrario, o final dizia que elle delirára a ultima hora, effeito da molestia. Ainda bem! Rubião leu novamente a carta, e a hypothese da troça pareceu outra vez mais verosimil. Concordou que elle tinha graça; com certeza, quiz debical-o; foi a Santo Agostinho, como iria a Santo Ambrosio ou a Santo Hilario, e escreveu uma carta enigmatica, para confundil-o, até voltar e rir-se do logro. Pobre amigo! Estava são,—são e morto. Sim, já não padecia nada. Vendo o cachorro, suspirou:
—Coitado do Quincas Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu ...
Depois, comsigo:
—Agora, que já acabou a obrigação, vou dal-o á comadre Angelica.
A noticia correra a cidade, o vigario, o pharmaceutico da casa, o medico, todos mandaram saber se era verdadeira. O agente do correio, que a lera nas folhas, trouxe em mão propria ao Rubião, uma carta que viera na mala para elle; podia ser do finado, comquanto a lettra do subscripto fosse outra.
—Então afinal o homem espichou a canella? disse elle, emquanto Rubião abria a carta, corria á assignatura e lia: Braz Cubas. Era um simples bilhete:
«O meu pobre amigo Quincas Borba falleceu hontem em minha casa, onde appareceu ha tempos esfrangalhado e sordido: fructos da doença. Antes de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que lhe désse particularmente esta noticia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria, segundo as praxes do foro.»
Os agradecimentos fizeram empallidecer o professor; mas as praxes do foro restituiram-lhe o sangue. Rubião fechou a carta sem dizer nada; o agente fallou de uma cousa e outra, depois sahiu. Rubião ordenou a um escravo que levasse o cachorro de presente á comadre Angelica, dizendo-lhe que, como gostava de bichos, lá ia mais um; que o tratasse bem, porque elle estava acostumado a isso; finalmente que o nome do cachorro era o mesmo que o do dono, agora morto, Quincas Borba.
Quando o testamento foi aberto, Rubião quasi cahiu para traz. Adivinhaes porque. Era nomeado herdeiro universal do testador. Não cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital inteiro, especificados os bens, casas na Côrte, uma em Barbacena, escravos, apolices, acções do Banco do Brazil e de outras instituições, joias, dinheiro amoedado, livros,—tudo finalmente passava ás mãos do Rubião, sem desvios, sem deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas, nem dividas. Uma só condição havia no testamento, a de guardar o herdeiro comsigo o seu pobre cachorro Quincas Borba, nome que lhe deu por motivo da grande affeição que lhe tinha. Exigia do dito Rubião que o tratasse como se fosse a elle proprio testador, nada poupando em seu beneficio, resguardando-o de molestias, de fugas, de roubo ou de morte que lhe quizessem dar por maldade; cuidar finalmente como se cão não fosse, mas pessoa humana. Item, impunha-lhe a condição, quando morresse o cachorro, de lhe dar sepultura decente em terreno proprio, que cobriria de flores e plantas cheirosas; e mais desenterraria os ossos do dito cachorro, quando fosse tempo idoneo, e os recolheria a uma urna de madeira preciosa para deposital-os no lugar mais honrado da casa.
Tal era a clausula. Rubião achou-a natural, posto que só tivesse pensamento para cuidar na herança. Espreitára uma deixa, e sae-lhe do testamento a massa toda dos bens. Não podia acabar de crer; foi preciso que lhe apertassem muito as mãos, com força,—a força dos parabens,—para não suppor que era mentira.
—Sim, senhor, lavre um tento, dizia-lhe o dono da pharmacia que ministrara os remedios ao Quincas Borba.
Herdeiro já era muito; mas universal... Esta palavra inchava as bochechas á herança. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha menos. E quanto seria tudo? ia elle pensando. Casas, apolices, acções, escravos, roupa, louça, alguns quadros, que elle teria na côrte, porque era homem de muito gosto, fallava de cousas de arte com grande saber. E livros? devia ter muitos livros, citava muitos delles. Mas emquanto andaria tudo? Cem contos? Talvez duzentos. Era possível; trezentos mesmo não havia que admirar. Trezentos contos! trezentos! E o Rubião tinha impetos de dansar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem, ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho comprido, para não acabar mais.
Aqui a ideia do cachorro pôde tomar pé no torvelinho de ideias que iam pela cabeça do nosso homem. Rubião achava que a clausula era natural, mas desnecessaria, porque elle e o cão eram dous amigos, e nada mais certo que ficarem juntos, para lembrar o terceiro amigo, o extincto, o autor da felicidade de ambos. Havia, sem duvida, umas particularidades na clausula, uma historia de urna, e não sabia que mais; mas tudo se havia de cumprir, ainda que o céo viesse abaixo... Não, com a ajuda de Deus, emendava elle. Bom cachorro! excellente cachorro!
Rubião não esquecia que muitas vezes tentára enriquecer com emprezas que morreram em flor. Suppoz-se n'aquelle tempo um desgraçado, um caipora, quando a verdade era que «mais vale quem Deus ajuda, do que quem cedo madruga.» Tanto não era impossivel enriquecer, que estava rico.
—Impossivel, o que? exclamou em voz alta. Impossivel é a Deus peccar. Deus não falta a quem promette.
Ia assim, descendo e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa, sem plano, com o sangue aos pulos, e as ideias baralhadas. De repente, surgiu-lhe este grave problema:—se iria viver no Rio de Janeiro, ou se ficaria em Barbacena. Sentia cocegas de ficar, de brilhar onde escurecia, de quebrar a castanha na bocca aos que antes faziam pouco caso delle, e principalmente aos que se riram da amizade do Quincas Borba. Mas logo depois, vinha a imagem do Rio de Janeiro, que elle conhecia, com os seus feitiços, movimento, theatros em toda a parte, moças bonitas, «vestidas á franceza.» Resolveu que era melhor, podia subir muitas e muitas vezes á cidade natal.
—Quincas Borba! Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou entrando em casa.
Nada de cachorro. Só então é que elle se lembrou de havel-o mandado dar á comadre Angelica. Correu á casa da comadre, que era distante. De caminho accudiram-lhe todas as ideias feias, algumas extraordinarias. Uma ideia feia, é que o cão tivesse fugido. Outra extraordinaria é que algum inimigo, sabedor da clausula e do presente, fosse ter com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a herança... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois começou a vêr mais claro.
—Não conheço negocios de justiça, pensava elle, mas parece que não tenho nada com isso. A clausula suppõe o cão vivo ou em casa; mas se elle fugir ou morrer, não se ha de inventar um cão; logo, a intenção principal... Mas são capazes de fazer chicana os meus inimigos. Não cumprida a clausula...
Aqui a testa e as costas das mãos do nosso amigo ficaram em agua. Outra nuvem pelos olhos. E o coração batia-lhe rapido, rapido. A clausula começava a parecer-lhe extravagante. Rubião pegava-se com os santos, promettia missas, dez missas... Mas lá estava a casa da comadre. Rubião picou o passo; viu alguém; era ella? era, era ella, encostada á porta e rindo.
—Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com os braços.
—Sinhá comadre, o cachorro? perguntou Rubião com indifferença, mas pallido.
—Entre, e abanque-se, respondeu ella. Que cachorro?
—Que cachorro? tornou Rubião cada vez mais pallido. O que lhe mandei. Pois não se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar aqui alguns dias, descançando, a ver se... em summa, um animal de muita estimação. Não é meu. Veiu para... Mas não se lembra?
—Ah! não me falle nesse bicho! respondeu ella precipitando as palavras.
Era pequena, tremia por qualquer cousa, e quando se apaixonava, engrossavam-lhe as veias do pescoço. Repetiu que lhe não fallasse do bicho.
—Mas que lhe fez elle, sinhá comadre?
—Que me fez? Que é que me faria o pobre animal? Não come nada, não bebe, chora que parece gente, e anda só com o olho para fóra, a ver se foge.
Rubião respirou. Ella continuou a dizer os enfadamentos do cachorro; elle ancioso, queria vel-o.
—Está lá no fundo, no cercado grande; está sósinho para que os outros não bulam com elle. Mas o compadre vem buscal-o? Não foi isso o que disseram. Pareceu-me ouvir que era para mim, que era dado.
—Daria cinco ou seis, se pudesse, respondeu Rubião. Este não posso; sou apenas depositario. Mas deixe estar, prometto-lhe um filho. Creia que o recado veiu torto.
Rubião ia andando; a comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. Lá estava o cão, dentro do cercado, deitado a distancia de um alguidar de comida. Cães, gatos, saltavam de todos os lados, cá fora; a um lado havia um gallinheiro, mais longe porcos; mais longe ainda, uma vacca deitada, somnolenta, com duas gallinhas ao pé, que lhe picavam a barriga, arrancando carrapato.
—Olhe o meu pavão! dizia a commadre.
Mas Rubião tinha os olhos no Quincas Borba, que farejava impaciente, e que se atirou para elle, logo que um moleque abriu a porta do cercado. Foi uma scena de delirio; o cachorro pagava as caricias do Rubião, latindo, pulando, beijando-lhe as mãos.
—Meu Deus! que amizade!
—Não imagina, sinhá comadre. Adeus, prometto-lhe um filho.
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