Читать книгу «Quincas Borba» онлайн полностью📖 — Machado de Assis — MyBook.
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CAPITULO VIII

No dia seguinte, Quincas Borba accordou com a resolução de ir ao Rio de Janeiro, voltaria no fim de um mez, tinha certos negocios... Rubião ficou espantado. E a molestia, e o medico? O doente respondeu que o medico era um charlatão, e que a molestia precisava espairecer, tal qual a saude. Molestia e saude eram dous caroços do mesmo fructo, dous estados de Humanitas.

—Vou a alguns negocios pessoaes, concluiu o enfermo, e levo, além disso, um plano tão sublime, que nem mesmo você poderá entendel-o. Desculpe-me esta franqueza; mas eu prefiro ser franco com você a sel-o com qualquer outra pessoa.

Rubião fiou do tempo que este projecto lhe passasse, como tantos outros; mas enganou-se. Accrescia que, em verdade, o doente parecia estar melhorando; não ia á cama, saía á rua, escrevia. No fim de uma semana, mandou chamar o tabellião.

—Tabellião? repetiu o amigo.

—Sim, quero registrar o meu testamento. Ou vamos la os dous...

Foram os tres, porque o cão não deixava partir o amo e senhor sem acompanhal-o. Quincas Borba registrou o testamento, com as formalidades do estylo, e tornou tanquillo para casa. Rubião sentia bater-lhe o coração violentamente.

—Está claro que eu não o deixo ir só para a Côrte, disse elle ao amigo.

—Não, não é preciso. Demais, Quincas Borba não vae, e não o confio a outra pessoa, senão a você. Deixo a casa como está. Daqui a um mez estou de volta. Vou amanhã; não quero que elle presinta a minha sahida. Cuide delle, Rubião.

—Cuido, sim.

—Jura?

—Por esta luz que me allumia. Então sou alguma creança?

—Dê-lhe leite ás horas apropriadas, as comidas todas do costume, e os banhos; e quando sahir a passeio com elle, olhe que não vá fugir. Não, o melhor é que não saia .. não saia...

—Vá socegado.

Quincas Borba chorava pelo outro Quincas Borba. Não quiz vel-o á sahida. Chorava deveras, lagrimas de loucura ou de affeição, quaesquer que fossem, elle as ia deixando pela boa terra mineira, como o derradeiro suor de uma alma obscura, prestes a cahir no abysmo.

CAPITULO IX

Horas depois, teve Rubião um pensamento horrivel. Podiam crer que elle proprio incitara o amigo á viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se é que realmente estava incluso no testamento. Sentiu remorsos. Porque não empregou todas as forças, para contel-o? Viu o cadaver do Quincas Borba, pallido, hediondo, fitando nelle um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho se désse em viagem, abrir mão do legado.

Pela sua parte o cão vivia farejando, ganindo, querendo fugir; não podia dormir quieto, levantava-se muitas vezes, á noite, percorria a casa, e tornava ao seu canto. De manhã, Rubião chamava-o á cama, e o cão acudia alegre; imaginava que era o proprio dono; via depois que não era, mas aceitava as caricias, e fazia-lhe outras, como se Rubião tivesse de levar as suas ao amigo, ou trazel-o para alli. Demais, havia-se-lhe affeiçoado tambem, e para elle era a ponte que o ligava á existencia anterior. Não comeu durante os primeiros dias. Supportando menos a sede, Rubião pôde alcançar que bebesse leite; foi a unica alimentação por algum tempo. Mais tarde, passava as horas, calado, triste, enrolado em si mesmo, ou então com o corpo estendido e a cabeça entre as mãos.

Quando o medico voltou, ficou espantado da temeridade do doente; deviam tel-o impedido de sair; a morte era certa.

—Certa?

—Mais tarde ou mais cedo. Levou o tal cachorro?

—Não, senhor, está commigo; pediu que cuidasse delle, e chorou, olhe que chorou que foi um nunca acabar. Verdade é, disse ainda Rubião para defender o enfermo, verdade é que o cachorro merece a estima do dono: parece gente.

O medico tirou a largo chapéo de palha para concertar a fita; depois sorriu. Gente? Com que então parecia gente? Rubião insistia, depois explicava; não era gente como a outra gente, mas tinha cousas de sentimento, e até de juizo. Olhe, ia contar-lhe uma...

—Não, homem, não, logo, logo, vou a um doente de erysipella... Se vierem cartas delle, e não forem reservadas, desejo vel-as, ouviu? E lembranças ao cachorro, concluiu sahindo.

Algumas pessoas começaram a mofar do Rubião e da singular incumbencia de guardar um cão, em vez de ser o cão que o guardasse a elle. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em que havia de dar o professor! sentinella de cachorro! Rubião tinha medo da opinião publica. Com effeito, parecia-lhe ridiculo; fugia aos olhos extranhos, o mais que lhe era possivel; em casa, olhava com fastio para o animal; dava-se ao diabo, arrenegava da vida. Não tivesse a esperança de um legado, pequeno que fosse. Era impossivel que lhe não deixasse uma lembrança.

CAPITULO X

Sete semanas depois, chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de Janeiro, toda do punho do Quincas Borba:

«Meu caro senhor e amigo,

«Você ha de ter estranhado o meu silencio. Não lhe tenho escripto por certos motivos particulares, etc. Voltarei breve; mas quero communicar-lhe desde já um negocio reservado, reservadissimo.

«Quem sou eu, Rubião? Sou Santo Agostinho. Sei que ha de sorrir, porque você é um ignaro, Rubião; a nossa intimidade permittia-me dizer palavra mais crua, mas faço-lhe esta concessão, que é a ultima. Ignaro!

«Ouça, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto ante-hontem; ouça e cale-se. Tudo coincide nas nossas vidas. O santo e eu passámos uma parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero heresia tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas; ambos furtámos, elle, em pequeno, umas peras de Carthago, eu, já rapaz, um relogio do meu amigo Braz Cubas. Nossas mães eram religiosas e castas. Emfim, elle pensava, como eu, que tudo que existe é bom, e assim o demonstra no cap. XVI, livro VII das Confissões, com a differença que para elle, o mal é um desvio da vontade, illusão propria de um seculo atrazado, concessão ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e só a primeira affirmação é verdadeira; todas as cousas são boas, omnia bona, e adeus.

«Adeus, ignaro. Não contes a ninguém o que te acabo de confiar, se não queres perder as orelhas. Cala-te, guarda, e agradece a boa fortuna de ter por amigo um grande homem, como eu, embora não me comprehendas. Has de comprehender-me. Logo que tornar a Barbacena, dar-te-hei em termos explicados, simples, adequados ao entendimento de um asno, a verdadeira noção do grande homem. Adeus; lembranças ao meu pobre Quincas Borba. Não esqueças de lhe dar leite; leite e banhos; adeus, adeus... Teu do coração

JOAQUIM BORBA DOS SANTOS.»

Rubião mal sustinha o papel nos dedos. Passados alguns segundos, advertiu que podia ser um gracejo do amigo, e releu a carta; mas a segunda leitura confirmou a primeira impressão. Não havia duvida; estava doudo. Pobre Quincas Borba! Assim, as exquisitices, a frequente alteração de humor, os impetos sem motivo, as ternuras sem proporção, não eram mais que prenuncios da ruina total do cerebro. Morria antes de morrer. Tão bom! Tão alegre! Tinha impertinencias, é verdade; mas a doença explicava-as. Rubião enxugou os olhos, humidos de commoção. Depois, veiu a lembrança do possivel legado, e ainda mais o affligiu, por lhe mostrar que bom amigo ia perder.

Quiz ainda uma vez ler a carta, agora devagar, analysando as palavras, desconjuntando-as, para ver bem o sentido e descobrir se realmente era uma troça de philosopho. Aquelle modo de o descompor brincando, era conhecido; mas, o resto confirmava a suspeita do desastre. Já quasi no fim, parou enfiado. Dar-se-hia que, provada a alienação mental do testador, nullo ficaria o testamento, e perdidas as deixas? Rubião teve uma vertigem. Estava ainda com a carta aberta nas mãos, quando viu apparecer o doutor, que vinha por noticias do enfermo; o agente do correio dissera-lhe haver chegado uma carta. Era aquella?

—É esta, mas...

—Tem alguma communicação reservada...?

—Justamente, traz uma communicação reservada, reservadissima; negocios pessoaes. Dá licença?

Dizendo isto, Rubião metteu a carta no bolso; o medico sahiu; elle respirou. Escapára ao perigo de publicar tão grave documento, por onde se podia provar o estado mental de Quincas Borba. Minutos depois, arrependeu-se, devia ter entregado a carta, sentiu remorsos, pensou em mandal-a á casa do medico. Chamou por um escravo; quando este accudiu, já elle mudára outra vez de idéa; considerou que era imprudencia; o doente viria em breve,—d'alli a dias,—perguntaria pela carta, arguil-o-hia de indiscreto, de delator... Remorsos faceis, de pouca dura.

—Não quero nada, disse ao escravo. E outra vez pensou no legado. Calculou o algarismo. Menos de dez contos, não. Compraria um pedaço de terra, uma casa, cultivaria isto ou aquillo, ou lavraria ouro. O peor é se era menos, cinco contos... Cinco? Era pouco; mas, emfim, talvez não passasse disso. Cinco que fossem, era um arranjo menor, e antes menor que nada. Cinco contos... Peor seria se o testamento ficasse nullo. Vá, cinco contos!

CAPITULO XI

No começo da semana seguinte, recebendo os jornaes da corte (ainda assignaturas do Quincas Borba) leu Rubião esta noticia em um d'elles:

«Falleceu hontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo supportado a molestia com singular pbilosophia. Era homem de muito saber, e cançava-se em batalhar contra esse pessimismo amarello e enfesado que ainda nos ha de chegar aqui um dia; é a molestia do seculo. A ultima palavra delle foi que a dor era uma illusão, e que Pangloss não era tão tolo como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena.»