— Por favor, diz-me que estás a brincar.
— Acredita, não foi ideia minha.
— Sabes quanto tempo e esforço dediquei a organizar esta viagem? Tive de me reunir com o primeiro-ministro, pelo amor de Deus!
— E eu lamento isso — disse Gabriel de forma solene —, profunda e eternamente.
Estavam sentados nas traseiras de um pequeno restaurante em Murano. Gabriel tinha esperado que terminassem as entradas, antes de contar a Chiara o seu plano de ir a Roma de manhã. Reconhecidamente, fizera-o por motivos egoístas. O restaurante, cuja especialidade era peixe, era um dos seus favoritos em Veneza.
— É só um dia, Chiara.
— Nem tu acreditas nisso.
— Não, mas tinha de tentar.
Chiara ergueu um copo de vinho na direção dos lábios. O resto do seu pinot grigio fulgia com o fogo ténue da luz da vela refletida. — Porque é que não foste convidado para o funeral?
— Aparentemente, o cardeal Albanese não conseguiu encontrar um lugar vago para mim em toda a Praça de São Pedro.
— Foi ele que encontrou o corpo, não foi?
— Na capela privada — disse Gabriel.
— Achas mesmo que foi assim que aconteceu?
— Estás a sugerir que a Sala de Imprensa da Santa Sé pode ter divulgado um bollettino falso?
— Tu e o Luigi colaboraram na redação de várias declarações enganosas ao longo dos anos.
— Mas os nossos motivos foram sempre puros.
Chiara pousou o copo de vinho na toalha de mesa branca e rodou-o lentamente.
— Porque é que achas que ele quer encontrar-se contigo?
— Não pode ser nada de bom.
— O que é que o general Ferrari disse?
— O mínimo possível.
— Isso não parece nada dele.
— Talvez tenha referido que tem alguma coisa a ver com a escolha do próximo Sumo Pontífice da Igreja Católica e Apostólica Romana.
O copo de vinho parou.
— O conclave?
— Não entrou em pormenores.
Gabriel deu um toque no telefone para o acender e viu as horas. Fora finalmente forçado a separar-se do seu querido BlackBerry Key2. O seu novo aparelho era um Solaris, produzido em Israel e personalizado de acordo com as suas características únicas. Maior e mais pesado do que um smartphone típico, fora fabricado para resistir ao ataque remoto dos mais sofisticados hackers do mundo, incluindo a NSA americana e a Unidade 8200 israelita. Todos os colaboradores próximos de Gabriel tinham um, tal como Chiara. Era o seu segundo, pois Raphael atirara o primeiro do terraço do apartamento deles em Jerusalém. Apesar de toda a sua inviolabilidade, o dispositivo não fora concebido para sobreviver a uma queda de três andares e a uma colisão com um pavimento de calcário.
— É tarde — disse ele. — Devíamos ir resgatar os teus pais.
— Não precisamos de nos apressar. Eles adoram ter as crianças por perto. Por eles, nunca deixaríamos Veneza.
— A Avenida Rei Saul era capaz de dar pela minha ausência.
— O primeiro-ministro também. — Ficou em silêncio durante um momento. — Tenho de admitir que não estou ansiosa por voltar para casa. Foi bom ter-te só para mim.
— Só faltam dois anos para terminar o meu mandato.
— Dois anos e um mês. Mas quem é que está a contar?
— Tem sido terrível?
Ela fez uma careta.
— Nunca quis desempenhar o papel da esposa queixosa. Conheces o género, não conheces, Gabriel? Essas mulheres são tão irritantes…
— Sempre soubemos que ia ser difícil.
— Sim — disse ela vagamente.
— Se precisares de ajuda…
— Ajuda?
— Outro par de mãos em casa.
Ela franziu o sobrolho.
— Consigo desenrascar-me muito bem sozinha, obrigada. Simplesmente, sinto a tua falta, é só isso.
— Dois anos passam num abrir e fechar de olhos.
— E prometes que não vais deixar que te convençam a cumprir um segundo mandato?
— Nem pensar nisso.
O rosto dela iluminou-se.
— Então, como é que planeias passar a reforma?
— Dito dessa maneira, até parece que devia começar a procurar um lar.
— Os anos estão a passar por ti, querido. — Deu-lhe uma palmadinha nas costas da mão, o que não o fez sentir-se mais jovem. — Então? — perguntou ela.
— Planeio dedicar os meus últimos anos neste planeta a fazer-te feliz.
— Nesse caso, vais fazer tudo o que eu quiser?
Ele olhou-a cuidadosamente.
— Dentro do que for razoável, como é evidente.
Ela baixou rapidamente o olhar e puxou um fio solto da toalha de mesa.
— Tomei café com o Francesco, ontem.
— Ele não me contou.
— Eu pedi-lhe para não te contar.
— Então, está explicado. E de que é que falaram?
— Do futuro.
— O que é que ele tem em mente?
— Uma parceria.
— Eu e o Francesco?
Chiara não respondeu.
— Tu?
Ela assentiu com a cabeça.
— Quer que eu venha trabalhar para ele. E, quando se reformar, daqui a alguns anos…
— O quê?
— A Restauro Tiepolo será minha.
Gabriel recordou as palavras que Tiepolo lhe dissera junto do túmulo de Tintoretto. Hoje estás de férias, mas, um dia, vais morrer em Veneza… Não lhe parecia que aquele plano tivesse surgido no dia anterior, enquanto tomavam café.
— Uma respeitável rapariga judia, vinda do gueto, vai zelar pelas igrejas e scuole de Veneza? É isso que estás a dizer?
— É extraordinário, não é?
— E o que é que eu vou fazer?
— Suponho que possas passar os dias a deambular pelas ruas de Veneza.
— Ou?
Ela fez um lindo sorriso.
— Podes trabalhar para mim.
Desta vez, foi Gabriel que baixou o olhar. O seu telefone estava iluminado com uma mensagem recebida da Avenida Rei Saul. Virou o aparelho ao contrário.
— Isso pode ser controverso, Chiara.
— Trabalhares para mim?
— Deixar Israel assim que o meu mandato terminar.
— Tencionas candidatar-te a um lugar no Knesset?
Ele revirou os olhos.
— Escrever um livro sobre as tuas façanhas?
— Vou deixar essa tarefa para outra pessoa.
— Então?
Ele não respondeu.
— Se ficares em Israel, vais estar facilmente ao alcance do Departamento. E, se houver uma crise, vão arrastar-te de volta para resolveres o problema, tal como fizeram com o Ari.
— O Ari queria voltar a entrar. Eu sou diferente.
— És mesmo? Às vezes, não tenho tanta certeza disso. Na verdade, estás cada vez mais parecido com ele.
— E as crianças? — perguntou ele.
— Elas adoram Veneza.
— A escola?
— Por incrível que pareça, temos várias escolas excelentes.
— Os miúdos vão tornar-se italianos.
Ela franziu o sobrolho.
— É uma pena, isso.
Gabriel expirou lentamente.
— Viste a contabilidade do Francesco?
— Vou pôr tudo em ordem.
— Os verões aqui são terríveis.
— Vamos para as montanhas ou velejar no Adriático. Há anos que não velejas, querido.
Gabriel esgotara as objeções. Na verdade, achava que era uma ideia maravilhosa. No mínimo, manteria Chiara ocupada durante os últimos dois anos do seu mandato.
— Temos acordo? — perguntou ela.
— Acho que sim, desde que cheguemos a um consenso sobre o meu salário, que vai ser exorbitante.
Fez sinal ao empregado de mesa para pedir a conta. Chiara estava novamente a puxar o fio solto da toalha de mesa.
— Há uma coisa que me está a incomodar — disse ela.
— Em relação a desenraizar as crianças e mudarmo-nos para Veneza?
— O bollettino do Vaticano. O Luigi ficava sempre com o Lucchesi até tarde. E, quando o Lucchesi ia para a capela rezar e meditar antes de ir para a cama, o Luigi ia sempre com ele.
— É verdade.
— Então, porque é que foi o cardeal Albanese que encontrou o corpo?
— Suponho que nunca iremos saber. — Gabriel fez uma pausa. — A não ser que, amanhã, eu almoce com o Luigi em Roma.
— Podes ir, com uma condição.
— Qual é?
— Leva-me contigo.
— E os miúdos?
— Os meus pais podem tomar conta deles.
— E quem é que vai tomar conta dos teus pais?
— Os carabinieri, claro.
— Mas…
— Não me faças pedir duas vezes, Gabriel. Odeio mesmo desempenhar o papel da esposa queixosa. Essas mulheres são tão irritantes…
Na manhã seguinte, depois do pequeno-almoço, deixaram as crianças na casa dos Zolli e apressaram-se a ir para Santa Lucia a tempo de apanharem o comboio das oito para Roma. Enquanto as planícies ondulantes do centro de Itália deslizavam pela janela, Gabriel leu os jornais e trocou alguns e-mails e mensagens de rotina com a Avenida Rei Saul. Chiara folheava uma volumosa pilha de revistas e catálogos de decoração de interiores, lambendo a ponta do dedo indicador ao virar cada página.
Ocasionalmente, quando a combinação de luz e sombras era favorável, Gabriel vislumbrava o reflexo de ambos no vidro. Tinha de reconhecer que eram um casal atraente, ele vestido com um elegante fato escuro e camisa branca, Chiara com umas leggings pretas e um casaco de cabedal. Apesar da pressão e das longas jornadas que caracterizavam o seu trabalho (e dos seus muitos ferimentos e encontros com a morte), Gabriel achava que se conservara bastante bem. Sim, as rugas em redor dos seus olhos cor de jade estavam um pouco mais profundas, mas continuava a ser um ciclista ágil e mantivera todo o seu cabelo, curto e escuro, mas muito grisalho nas têmporas. Mudara de cor quase de um dia para o outro, pouco depois do primeiro assassínio que executara a mando do Departamento. A operação tivera lugar no outono de 1972, na cidade onde chegariam em breve.
Enquanto se aproximavam de Florença, Chiara pôs-lhe um catálogo debaixo do nariz, pedindo-lhe a opinião sobre o sofá e a mesa de apoio exibidos na página aberta. A resposta indiferente de Gabriel valeu-lhe um olhar de ligeira repreensão. Aparentemente, Chiara já começara a vasculhar os anúncios das agências imobiliárias à procura da nova casa, acrescentando ainda mais provas à teoria de Gabriel de que o regresso a Veneza estava a ser planeado há algum tempo. Por agora, restringira a busca a duas propriedades, uma em Cannaregio e outra em San Polo, com vista para o Grande Canal. Ambas diminuiriam substancialmente a pequena fortuna que Gabriel acumulara com os seus trabalhos como restaurador e ambas exigiriam que Chiara fosse diariamente de transporte público para os escritórios de Tiepolo, em São Marcos. O apartamento de San Polo ficava muito mais perto, a algumas paragens de vaporetto, mas custava também o dobro do preço.
— Se vendêssemos o apartamento da Narkiss Street…
— Não vamos vendê-lo — disse Gabriel.
— O apartamento de San Polo tem um espaço incrível, com tetos altos, onde podes construir um estúdio a preceito.
— O que quer dizer que vou ter de aceitar encomendas particulares para complementar o salário miserável que vou ganhar a trabalhar para ti.
— Exatamente.
O telefone de Gabriel soou com o toque reservado para mensagens urgentes da Avenida Rei Saul. Chiara observou-o ansiosamente, enquanto ele lia.
— Vamos para casa?
— Ainda não.
— O que é?
— Um atentado com um carro-bomba na Potsdamer Platz, em Berlim.
— Vítimas?
— Provavelmente. Mas ainda não há confirmação.
— Quem foi?
— O Estado Islâmico está a reivindicar a responsabilidade.
— Eles têm capacidade para fazer explodir uma bomba na Europa Ocidental?
— Se me tivesses perguntado isso ontem, ter-te-ia dito que não.
Gabriel seguiu as atualizações que chegavam de Berlim até à chegada do comboio a Roma Termini. No exterior, o céu estava azul-celeste e sem nuvens. Gabriel e Chiara caminharam por veredas ocres de terracota, mantendo-se em ruas secundárias e vielas, onde as sentinelas eram mais fáceis de identificar. Enquanto deambulavam vagarosamente pela Piazza Navona, concordaram que não estavam a ser seguidos.
O ristorante Piperno ficava a uma curta distância para sul, num campo sossegado próximo do Tibre. Chiara entrou primeiro e foi conduzida a uma mesa cobiçada, perto da janela, por um empregado de mesa de casaco branco, deslumbrado pela sua beleza. Gabriel, que chegou três minutos depois, sentou-se no exterior, sob a luz quente do sol outonal. Conseguia ver os polegares de Chiara premindo furiosamente o teclado do telefone. Retirou o seu telefone do bolso interior do blazer e escreveu: Passa-se alguma coisa?
A resposta de Chiara chegou poucos segundos depois. O teu filho acaba de partir o jarrão preferido da minha mãe.
De certeza que foi culpa do jarrão, não dele.
A tua companhia para o almoço chegou.
Gabriel observou, enquanto um Fiat antigo se arrastava hesitantemente sobre as pedras da calçada do minúsculo campo. Tinha uma matrícula romana normal, não a matrícula especial SCV, reservada para viaturas do Vaticano. Um clérigo alto e elegante emergiu do banco de trás. A sua batina e peregrineta negras eram debruadas a amaranto, a plumagem de um arcebispo. A sua chegada ao ristorante Piperno provocou só ligeiramente menos tumulto do que a de Chiara.
— Desculpa — disse Luigi Donati, enquanto se sentava em frente de Gabriel. — Nunca devia ter aceitado falar com aquela jornalista da Vanity Fair. Hoje em dia, não posso ir a nenhum lado em Roma sem ser reconhecido.
— Porque é que deste a entrevista?
— Ela deixou claro que ia escrever o artigo, com ou sem a minha colaboração.
— E acreditaste nisso?
— Ela prometeu que seria um perfil sério de um homem que ajudou a conduzir a Igreja através de águas agitadas. Acabou por não ser como prometido.
— Suponho que estejas a referir-te à parte sobre a tua aparência física.
— Não me digas que leste o artigo.
— Cada palavra.
Donati franziu o sobrolho.
— Devo dizer que o Santo Padre gostou bastante. Achou que fazia a Igreja parecer cool. Foi exatamente esta palavra que ele usou, já agora. Os meus rivais na Cúria não concordaram. — Mudou bruscamente de assunto. — Peço desculpa por ter interrompido as tuas férias. Espero que a Chiara não tenha ficado zangada.
— Pelo contrário.
— Estás a dizer-me a verdade?
— Alguma vez te enganei?
— Queres mesmo que eu responda a isso? — Donati sorriu. Fê-lo com esforço.
— Como é que estás a aguentar-te? — perguntou Gabriel.
— Estou a fazer o luto pela perda do meu mestre e a ajustar-me às minhas novas circunstâncias modestas e à perda de estatuto.
— Onde é que estás hospedado?
— Na Cúria Jesuíta. É no final da rua do Vaticano, na Borgo Santo Spirito. Os meus aposentos não são tão bons como o meu apartamento no Palácio Apostólico, mas são bastante confortáveis.
— Arranjaram-te alguma coisa para fazeres?
— Vou ensinar Direito Canónico na Gregoriana. Também estou a preparar um curso sobre a história conturbada da Igreja com os judeus. — Fez uma pausa. — Talvez algum dia consiga convencer-te a dares uma palestra como convidado.
— Já imaginaste?
— Na verdade, já. A relação entre as nossas duas fés nunca esteve melhor, e isso deve-se à tua amizade pessoal com o Pietro Lucchesi.
— Enviei-te uma mensagem, na noite em que ele faleceu — disse Gabriel.
— Significou muito para mim.
— Porque é que não me respondeste?
— Pela mesma razão que não enfrentei o cardeal Albanese quando ele se recusou a autorizar a tua presença no funeral. Precisava da tua ajuda numa questão sensível e não queria atrair atenção desnecessária para a proximidade da nossa relação.
— E a questão sensível?
— Está relacionada com a morte do Santo Padre. Houve certas… irregularidades.
— A começar pela identidade da pessoa que descobriu o corpo.
— Reparaste nisso?
— Na verdade, foi a Chiara.
— É uma mulher inteligente.
— Porque é que o cardeal Albanese encontrou o corpo? Porque é que não foste tu, Luigi?
Donati baixou o olhar para a ementa.
— Talvez devêssemos pedir alguma coisa de entrada. Que tal as folhas de alcachofra e flores de curgete fritas? E os filetti di baccalà. O Santo Padre jurava sempre que eram os melhores de Roma.
О проекте
О подписке
Другие проекты