—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o será, querendo Nossa Senhora.
Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que não poderam suster o relance de olhos que se trocaram.
—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto uma boa talhada.—A vida de padre boa é; mas não queira o Senhor que o menino seja padre. O que é preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta creatura, lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa, que eu não quero morrer sem ver gente miuda n’esta casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando era pequeno (que a fallar a verdade eu já não tinha cabello preto nem para uma mézinha). Andava sempre a fugir p’ros campos, e eu a procural-o, e ia dar com elle a caçar grillos á torreira do sol: e de inverno andava sempre por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões. Deu-me que fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem os seus filhos. Quando eu vim para cá, seu pae tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada?
Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado, e mais ainda por ver que a Peregrina, ao passo que Brazia fallava, descia o rosto sobre a hortaliça, voltando-o de modo a não ser visto de frente pelo moço, que por sua parte se estava tambem escondendo no mais sombrio da cosinha, até encontrar a porta por onde sahiu.
O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa da livraria.
Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos sabios d’aquella familia. A bibliotheca fôra principiada no ultimo quartel do seculo XIV por um padre Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera no concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu saber, e reportadas virtudes, ao santo arcebispo de Braga, D. Bartholomeu dos Martyres. Encadernadas em pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas magoadas revelando o peso das obrigações prelaticias, e outras mais de folga, datadas no convento de Vianna do Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a descançar, e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes nuas, em mezas sem panno, um candieiro de ferro pendurado de um prego, uma cama de frade ordinario sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza recordava o padre João Ferreira, quando religiosamente deletreava os caracteres amarellados e meio delidos das cartas do arcebispo.
Voltando á livraria, os successores de Padre Vicente enriqueceram-n’a, empregando n’ella quanto dinheiro podiam amealhar, sem prejuizo dos pobres. Como quer, porém, que o rendimento de sua grande lavra sobre-excedesse o gasto, o remanescente era trocado por livros, enviados á escolha de entendedores monasticos, com quem os padres de Villa Cova, por amor da sciencia e piedosamente, entabolavam correspondencia.
Os tres ultimos sacerdotes d’esta familia não tinham comprado livro algum, desde os ultimos annos do reinado de D. João V, em que a religião degenerou de sua simplicidade em luxuosa, e, até certo ponto, hypocrita ostentação; e, de mais a mais, os que a tractavam moral ou dogmaticamente, escreviam-n’a em linguagem, que não era a de Domingos Feo, Thomé de Jesus, Heitor Pinto, Arraes e Lucena. Para bem aquilatarmos em qual grau de purismo classico andava a vernaculidade n’aquella serie de padres letrados, basta dizer-se que no frontespicio do primeiro volume dos sermonarios do padre A. Vieira, um padre Timotheo Militão escrevera: «Tambem este grande engenho está gafado!» A gafa de que se lastimava o escrupuloso idolatra dos aureos escriptores sem liga era aquelle geito de conceitista italico-hispano em que o preclaro jesuita, a espaços, se descuidava na oratoria.
Em quanto Ladislau e o vigario se entretem n’estas e semelhantes praticas, ingratas ao leitor de paladar mais delicado, Brazia está assim conversando com Peregrina, hombro a hombro, no escano da lareira, emquanto a galinha ferve:
—Brazia não seja eu, se Deus me não ha-de ajudar! Lá que os moços se querem, como eu á menina dos meus olhos, isso vou eu jural-o sobre umas Horas, sendo preciso! A menina é uma perfeição; o meu Ladislau é aquillo que alli está. Duas creaturas assim já vem lá de cima talhadas para serem uma da outra; e, quando acertam de se toparem no mesmo caminho, vão ambas p’ra direita, ou p’ra esquerda. Não tem remedio senão casarem-se.
—Pois sim—repetia Peregrina o que havia dito duas vezes:—Ainda hoje nos vimos, e já a sr.ª Brazia nos quer ver casados?
—Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece por ser vista muitas vezes? Eu ouvia ler a Historia Sagrada á sr.ª Sebastiana, que sabia ler como um padre, e já lá está na corte dos bemaventurados... Rezemos-lhe por alma.
A sr.ª Brazia rezou alto, e Peregrina mentalmente.
—Requiescat in pace,—disse a velha.
—Amen,—respondeu Peregrina, e benzeram-se.
Brazia continuou:
—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada conta que antigamente um moço sahia da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva, que elle nunca vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava. Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha peccado que fosse preciso descobrir com o tempo» dizia o sr. padre Praxedes, quando a irmã se admirava de casamentos assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo, a moça casadoura era por dentro como por fóra; via-se como á luz do meio dia o que ella lá tinha no seu interior: agora, pelos modos, é preciso espreitar muito tempo as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era dos rapazes antigos: viu a menina lá em cima na lapa da Crasta, gostou d’ella, tornou lá a saber se ella o queria, foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias, já ella aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como foi, e é como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho, não me deixeis ficar mal!
Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram á cosinha, onde estava posta a meza. Jantaram alegremente e de vontade. Os dizeres de Brazia, tendentes todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau, reparava na gravidade com que em silencio escutavam as facecias da inquebrantavel velhinha.
—Será possivel que...
Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do hospede e no rosto da irmã esta resposta:
—É possivel, e é certo.
Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira.
Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o de parte, e disse-lhe:
—Deixe-os lá...
Padre João não achou que responder á velha, e fez menção de seguir sua irmã, que o estava esperando.
—Não vá sem me ouvir duas palavras, sr. reverendo vigario. Sente-se n’este tamborete, que eu vou dizer aos moços, que vão á sua vida, e nós lá iremos ter.
O dialogo deteve-se boa meia hora. Depois sahiram á eira; e o padre levava amparada no braço a velha, que jogava difficilmente os joelhos.
—Ora diga-me o que elles estão fazendo, que eu já não enxergo nada—murmurou a velha.
—Ladislau está apanhando flores na ribanceira.
—Vê?—acudiu Brazia—que lhe disse eu? Flores são amores... E ella que faz? Não anda tambem ás flores?!
—Não, tia Brazia. Está sentada.
—A enfiar algum annel de missanga?
—Tambem não.
—Não? Então é uma ingrata. Vou ralhar com ella. E, acercando-se com extraordinaria presteza de Peregrina, disse-lhe em tom de graciosa severidade:
—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e dê-o ao sr. Ladislau.
Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez um gesto de consentimento. Ergueu-se ella a colher umas enfezadas flores silvestres e inverniças que se definhavam entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo tempo, dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha, muito para riso, senão justificassem a alegria que lhe acreançava os oitenta annos. Santa creatura para namorados era aquella Brazia! Estar ella dizendo tudo que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações á hora em que nem os proprios donos saberiam articular a linguagem d’elles; obrigar Peregrina a colher flores, quando a moça estava perguntando a si propria se parecia mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas, que amaram ou amam, da velhinha que tudo aquillo fez com tanto sizo e proposito e angelicas intenções!
Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o ramilhete d’elle. Qual dos dous tinha coração mais feminil? Pelo rubor da face não havia estremal-os.
—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a sahir açodada e regamboleando as rebeldes pernas pela eira fóra.
A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou de parte Ladislau, e disse-lhe de modo que o vigario e a irmã ouviram:
—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha na vespera de se casarem, e já foi de sua visavó. Aqui a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão levo-lha eu.
Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e disse á velha:
—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho. Deixe ver se o tempo, com a vontade de Deus, confirma os seus bons desejos, que serão tambem os meus.
Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se de Peregrina e offereceu-lhe o annel. O vigario, abalado e commovido pela acção inesperada do mancebo, tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina, exclamou:
—Pois não é um sonho?
Accudiu Brazia:
—Qual sonho? O que eu quero é os primeiros banhos apregoados no domingo; e de hoje a um mez esta menina é minha ama.
—Sua amiga, sua filha!—disse Peregrina abraçando-a.
Assim foi. Na quarta dominga seguinte receberam as bençãos estas duas creaturas preordenadas para a felicidade da terra e ceu.
Os casamentos, que Deus escolhe, são assim determinados com uma singelesa, copiada dos tempos visinhos da creação de varão e femea, como entes necessarios a si, e de repente identificados por unidade insoluvel de almas. E então era o viverem tão sós e um, como quem de uma só vida tinham de prestar contas ao juiz supremo.
A mim parece-me que o cazar-se a gente devia ser como Ladislau e Peregrina. Andar annos com o coração em ancias é desvigorisal-o para quando elle é mais necessario. Pelo ordinario, os noivos que se amam longo tempo, cazam-se quando o mais fino da sensibilidade está desgastado na abstracção e na chimera.
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