Eu, que já escrevi doze casamentos felizes de uma assentada, querendo agora enfeitar o de Ladislau e Peregrina, é tamanha a penuria do engenho em que me vejo, que—a não me acudir a fada do estylo—hei de contar o ditoso enlace, como elle está escripto no livro dos casamentos da freguezia de S. Julião da Serra.
Convém saber que é cousa para pouco discurso a passagem do amor ao sacramento, que o completa, lá n’essas terras abençoadas do obscurantismo, como era o termo de Pinhel, e continuará a ser por estes quatro seculos por vir, em virtude de lhe andar por muito longe das raias o caminho de ferro. De S. Julião da Serra, então, isso aposto eu que nunca ha de ser desalojada a santa ignorancia, que faz amarem-se e casarem-se logo as pessoas que se querem.
Vamos a bosquejar o casamento de Ladislau e Peregrina. Se a descripção me sair muito florida, não servirá. Guardarei os enfeites para exornação de outros casamentos, onde as flores sejam empregadas em disfarçar a mingua de coração e virtudes.
Findo o almoço Ladislau disse ao vigario:
—Como o dia está soalheiro e alegre, pedia eu ao sr. padre João e a sua irmã, que viessem passar o dia a Villa Cova. Se houver precisão da sua vinda á egreja para administrar a extrema-uncção, depressa o irá chamar alguem a minha casa; porém, graças a Deus, não está ninguem, que eu saiba, doente na freguezia.
—Pois vamos—disse o vigario sorrindo.—Caro lhe ha de ficar o almoço... O bom presunto vai pagar os maus ovos. Vem d’ahi, Peregrina, vamos lá ver a casa d’onde sahiram tantos homens grandes e obscuros, como são os homens que se escondem da sociedade para serem bons. Quem dirá, sr. Ladislau, que no curto horisonte d’estas serras que nos cercam, estão fechadas as lembranças dos santos ministros do altar, que vieram de sua casa para dentro d’estas quatro paredes velhas!... E seu pai, o viuvo amortalhado no habito de frade pedinte!... Vamos!... A minha indole melancolica chega a ser rustica! Vejo que o sr. Ladislau está alegre, e eu a chamal-o a lembranças pesarosas!...
No decurso da caminhada de um quarto de legua, foi Ladislau contando em miudos a sahida de seu pai para o convento de Vinhaes, e a saudade escura dos que ficaram, encarando a porta, que se abrira á passagem de um caixão, e logo ao desterrado perpetuo das alegrias d’esta vida. E o moço, a fallar de sua mãi, chorava; que é sabida cousa a facilidade que temos de chorar, quando o amor nos amollece, e, para assim dizer, anima o coração. Sem a presença de Peregrina, Ladislau seria mais insensitivo, mais duro, mais homem. O amor afemina as condições mais viris, e tem feito que as faces queimadas e negras da polvorada das pelejas se orvalhem e brilhem de lagrimas. No animo tenro e como infantil do moço de Villa Cova, a bem dita influição da meiga menina, que o ia ouvindo e amando, devia de abrir-lhe no peito os conductos todos das lagrimas maviosas. Não sei que mysterio santo e dulcissimo está no fallarmos de nossa mãi fallecida á mulher que nos bem quer. Póde ser que venha esta sensibilidade de recebermos de uma o coração, que damos a outra. Ou, talvez, seja de nos faltarem carinhos de mãi, e cuidar a gente que a esposa nol-os-ha de reviver.
Subiram os tres caminheiros o serro de uma quebrada, d’onde se entrevia a casa de Villa Cova, mal distincta do arvoredo de soutos e carvalhaes. N’este alto, está um rochedo, a pender sobre uma gruta de lage, ageitada pela natureza, e conhecida dos pastores, com guarida segura das trovoadas.
—Esta lapa convida—disse o vigario. Sentemo-nos aqui um pouco.
—Minha mãi,—disse Ladislau—chamava a esta penedia a sua gruta... eu ainda lhes não disse que minha mãi era pastora.
—Pastora?!—acudiu Peregrina, com ar de lisongeira admiração, significando sentir a patriarchal poesia da vida pastoril.
—Olhem se avistam—tornou o moço—pela garganta d’estas duas quebradas, lá em baixo, uma casa, nas costas de um souto fechado? Alli nasceu minha mãi de uns lavradores remediados; e, logo que teve a idade, tomou conta da rez, e vinha todos os dias com ella para a serra. Aqui no cavo d’este penhasco é que ella comia a sua merenda; e, assim que o sol começava a descer, tambem ella descia ao valle.
—Sosinha?—atalhou Peregrina, com visagem de sústo.
—Sosinha com dous cães de gado, os quaes, assim que anoutecia, um tomava a dianteira do rebanho, outro ia á beira d’ella. Muito chorou minha mãi, ao morrerem-lhe de velhos os seus cães! Quando vinhamos á igreja, minha mãi sentava-se sempre ahi n’essa pedra, onde está a sr.ª Peregrina, e dizia a meu pai: «Olha, se te lembras, meu santo!» E ficavam-se a olhar um no outro com semblante alegre.
Ladislau cessou de dizer o quer que fosse que attentamente o padre e a irmã esperavam. Por mais curiosa e lhana, Peregrina perguntou:
—E que seria? Porque lhe dizia ella que se lembrasse?
O moço sorriu-se candidamente, e continuou:
—Meu pai estudava para padre, e já tinha ordens menores, quando encontrou aqui minha mãi, andando elle ás perdizes. D’ahi a pouco tempo estavam casados. Isto me contaram meus tios. É bem de ver que ella se lembrasse, quando aqui chegava, da primeira vez que se viram, depois que eram grandes. Em pequeninos tinham sido muito amigos; mas, como meu pai desde os doze annos começou a estudar com um tio vigario, e veio habitar na residencia de S. Julião, quando se tornaram a ver foi tamanho o amor que...
Ladislau susteve-se com feminil pudor.
—E foram muito amigos?—disse Peregrina.
—Tão amigos—respondeu o padre—que se amortalharam ao mesmo tempo.—E, erguendo-se, acrescentou:—Ora vamos lá por ahi abaixo.
D’alli até casa, Ladislau foi contando ao vigario os estudos que tinha feito com seu tio, os livros que lêra, e os que mais eram do seu gosto. No tocante ao intento de ordenar-se, nada tinha dito, quando padre João lhe perguntou:
—Segundo me disseram, o sr. Ladislau está na ideia de ordenar-se?
—Faz hoje um anno que morreu meu tio—disse o sobrinho do padre Praxedes.—Pouco antes de ir a Deus, me disse elle que esperasse um anno a inspiração do Espirito Santo. Agora venho de orar sobre a sepultura de meu tio, pedindo-lhe...
—Que o allumiasse no difficil transito—atalhou o vigario, e ajuntou logo:—E vem decidido a ordenar-se?
Peregrina, que os seguia com alguma distancia, como ouvisse aquella pergunta, insensivelmente estugou o passo para ouvir a resposta.
Ladislau respondeu:
—Ainda não.
E, como voltasse o rosto ao padre no acto de responder, e visse os olhos de Peregrina, fitos em si, e expressivos de anciedade intima, Ladislau recebeu dentro da alma uns tamanhos abalos de alegria que não pôde nunca mais topar delicias comparaveis ás d’aquelle momento.
Entraram no quinteiro da casa de Villa Cova.
Á porta da córte dos cevados estava uma mulher octogenaria, com uma varinha na mão, acommodando os recos, que brigavam em redor da pia.[2] Esta mulher que tinha setenta annos de serviço em casa dos Militões, quando o amo, Peregrina e o vigario entraram no quinteiro, deixou cahir da mão trémula a varinha, e benzeu-se murmurando: «em nome da Santissima Trindade, Padre, Filho e Espirito!»
—Amen, disse padre João.
—Que tem vm.ᶜᵉ, tia Brazia?!—perguntou Ladislau.
—Ainda não estou em mim!—respondeu a velha Brazia, caminhando para o grupo, e formando com as mãos um sobreceu aos olhos para poder enxergar os recem-chegados; e proseguiu:—Cousa assim! Pois não me havia de parecer agora que via entrar por essas portas dentro... credo!...
—Quem lhe parecemos nós?—tornou Ladislau.
—Esta moça—tornou Brazia, aproximando-se de Peregrina—pareceu-me sua mãe, que Deus tem; o meu menino parecia-me seu pae, o santinho; e este sr. padre dava-me ares do sr. reverendo vigario Praxedes. Estou a vel-os como eram ha trinta annos, quando vinham da igreja, depois da missa do domingo, cá jantar a casa!
—Pois repare bem—disse o moço—que somos pessoas vivas, tia Brazia, e havemos de jantar para a convencermos de que não somos phantasmas.
—Pois sim, meu menino; graças a Deus ha muito quê; mas olhe que os servos estão todos por fóra, e eu não tenho pernas para andar atraz da gallinha. Cozinhal-a cozinho-a eu; mas pilhal-a isso ha-de ser vm.ᶜᵉ. E quem é essa mocinha tão bem posta e ageitada, benza-a Nosso Senhor?
—É irmã do sr. padre vigario, que está aqui.
—Ah! este é que é o sr. reverendo vigario? Bem me tinham dito que era ainda bem moço; mas isso não tira. Se a santidade fosse aquella dos velhos, então já eu estava no altar! Deite-me a sua benção, sr. reverendo vigario, e com Deus venha a esta casa d’onde sahiram tres santos só dos que conheci. Eu tenho dou carros de annos, aqui onde me vê, sanzinha e escorreita, bemdita seja Nossa Senhora.[3] Conheci, só á minha parte, o sr. padre Timotheo, o sr. padre Heitor, e o sr. padre Praxedes, afóra o santo pai do meu Ladislau, que morreu com o habito dos missionarios de Vinhaes.
Ladislau interrompeu Brazia, que ia sentar-se n’um feixe de vides para mais commodamente contar os successos alegres e tristes dos ultimos setenta annos da casa de Villa Cova. Pediu-lhe elle com brandura e graça que reservasse para depois de jantar as suas historias.
—Então vamos para dentro—disse ella—eu cá vou com a nossa menina mostrar-lhe a casa. Como é a sua graça?
—Peregrina.
—Por muitos annos e bons. Era melhor chamar-se Rosa, que é mesmo uma flôr; que Pelingrina tambem é bonito nome. Ora, pois, vá o menino apanhar a ave, que a panella vae já p’ro lume.
Ladislau e o vigario sahiram do quinteiro entraram na eira onde esgaravatavam as gallinhas. No entanto, Peregrina, como a velha se agachasse na lareira para espertar o lume amarroado, pediu-lhe que se assentasse no escabello, e a deixasse a ella cosinhar. Brazia cedeu ás instancias, repartindo o trabalho com a hospeda.
Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina com um alguidar no regaço, cegando as couves. Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr. vigario n’aquelle serviço, e a velha respondeu serenamente:
Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a regalar de a ver! Parece-me mesmo sua mãisinha, quando aqui entrou pela primeira vez. O noivo estava lá no sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá p’ra cosinha a ajudar as criadas.
—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era dona da casa e esta senhora é hospeda.
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