“ABAIXEM SUAS ARMAS” Rupert grita. “AGORA!”
Logan está a alguns metros de distância, apontando sua pistola na direção da minha cabeça. Ele continua segurando-a e posso ver que está deliberando se deve ou não atirar neste homem. Sei que ele quer, mas está preocupado em me atingir.
Percebo como eu fui idiota ao deixar esta pessoa vir conosco. Logan esteve certo o tempo inteiro. Eu deveria tê-lo escutado. Rupert só estava nos usado, estava atrás de nosso barco, nossa comida e nossos suprimentos, queria tudo para si mesmo. Ele está completamente desesperado. Percebo em um segundo que ele certamente irá me matar. Não tenho nenhuma dúvida disso.
“Atire!”eu grito para Logan. “Vamos!”
Eu confio em Logan – sei que ele atira muito bem. Mas Rupert me segura com força e eu posso ver que Logan está inseguro, indeciso. É neste momento que eu vejo nos olhos de Logan que ele tem medo em me perder. No final das contas, ele se importa. Ele realmente se importa.
Aos poucos, Logan segura sua arma com a palma aberta e então a coloca suavemente na neve. Meu coração aperta.
“Solte-a!” ele exige.
“A comida!” Rupert grita de volta, sua respiração em meus ouvidos. “Estes sacos! Traga-os para mim! Agora!”
Logan lentamente anda até a parte de trás do caminhão, pega os quatro pesados sacos e volta para o homem.
“Ponha-os no chão!” Rupert grita. “Devagar”
Lentamente, Logan os coloca no solo.
À distância, eu ouço o gemido do motor dos comerciantes de escravos, se aproximando. Não consigo acreditar em como eu fui idiota. Tudo está desmoronando bem na minha frente.
Bree sai do caminhão.
“Largue a minha irmã!” ela berra.
E então eu vejo o futuro se desenrolar diante dos meus olhos. Vejo o que vai acontecer. Rupert vai cortar minha garganta e então irá pegar a arma de Logan e irá matar Bree e ele. E depois Ben e Rose. Vai pegar toda a nossa comida e depois vai sumir.
Matar-me é uma coisa. Agora, machucar Bree é outra, completamente diferente. E é algo que eu simplesmente não vou permitir.
De repente, eu reajo. Imagens de meu pai passam em um flash por minha mente, sua coragem, seus movimentos nos combates mano-a-mano que ele havia me ensinado. Pontos de pressão. Golpes. Chaves de braço. Como se desviar de quase qualquer coisa. Como derrubar um homem com um só dedo. E como se livrar de uma faca no seu pescoço.
Eu invoco algum reflexo ancestral e deixo meu corpo se envolver. Levanto a parte interna de cotovelo, quinze centímetros, e o abaixo com tudo, mirando em seu plexo solar.
O golpe é preciso, exatamente aonde eu queria. Sua faca penetra um pouco em minha pele, arranhando-a, sinto dor.
Mas, ao mesmo tempo, eu o ouço exclamar e percebo que meu golpe funcionou.
Dou um passo e empurro seu braço para longe do meu pescoço e então dou um chute para trás, atingindo-o entre as pernas.
Ele tropeça para trás e cai na neve.
Fico ofegante, minha garganta está me matando. Logan mergulha para alcançar sua arma.
Eu me viro e vejo Rupert sair correndo em direção ao nosso barco. Ele dá três grandes passos e pula bem no meio. No mesmo movimento, ele corta a corda que segura o barco à margem. Tudo acontece em um piscar de olhos; mal consigo acreditar na velocidade com que ele se movimenta.
Ben fica ali parado, perturbado e confuso, sem saber o que fazer. Rupert, por outro lado, não hesita: se aproxima de Ben e lhe dá um soco no rosto com sua mão livre.
Ben tropeça e cai e, antes que ele consiga se levantar, Rupert o agarra por trás e, quase o sufocando, segura a faca próxima a sua garganta.
Ele se vira e nos encara, utilizando Ben como escudo humano. Dentro do barco, Rose está encolhida, gritando de medo e Penélope late como nunca.
“Se você me acertar, vai acertá-lo também!” Rupert avisa.
Logan está com sua arma de volta, de pé, mirando. Mas não é um tiro fácil. O barco vai se afastando da margem, já está a uns quinze metros, balançando loucamente com a força da correnteza. Logan tem uns cinco centímetros para acertá-lo sem matar Ben. Logan hesita e eu posso ver que ele não quer arriscar a vida de Ben, nem mesmo para nossa própria sobrevivência. É uma qualidade admirável.
“As chaves!” Rupert grita para Ben.
Ben, a seu favor, fez pelo menos uma coisa certa: ele deve ter escondido as chaves em algum lugar quando viu Rupert se aproximando. Bem pensado.
Ao longe, de repente, vejo os comerciantes de escravos aparecendo, o ronco de seus motores cada vez mais nítidos. Tenho uma crescente sensação de temor, de desamparo. Não sei mais o que fazer. Nosso barco está distante demais da margem para que a gente consiga pular dentro dele agora – e, mesmo que pudéssemos, Rupert mataria Ben durante o processo.
Penélope late e salta dos braços de Rose, atravessa o barco e afunda seus dentes no tornozelo de Rupert.
Ele berra e, momentaneamente, solta Ben.
Um tiro é disparado. Logan conseguiu sua chance e não perdeu tempo.
É um tiro limpo, bem no meio dos olhos. Rupert olha de volta para nós com os olhos arregalados, enquanto a bala penetra em seu cérebro. E então ele dá um passo para trás, para a beira no barco, como se fosse sentar e, por fim, cai de costas no rio, espirrando água.
Acabou.
“Traga o barco de volta para a margem!” Logan grita para Ben. “JÁ!”
Ben, ainda perturbado, entra em ação. Ele pega as chaves de seu bolso, liga o barco e o direciona de volta à terra. Eu agarro dois sacos de comida, Logan pega os outros dois e nós os jogamos dentro do barco assim que este toca a margem. Pego Bree e coloco dentro do barco, então corro de volta para o caminhão. Logan pega os sacos com suprimentos e eu pego Sasha. Então, ao me lembrar, volto para o caminhão e pego o arco e as flechas de Rupert. Sou a última a pular da margem para o barco, já partindo. Logan toma conta do timão, pisa no acelerador e vamos pegando velocidade, nos afastando do pequeno canal.
Vamos depressa em direção à entrada do Hudson, a uns cem metros de nós. No horizonte, o barco dos comerciantes de escravos – belo, negro e ameaçador – avança em nossa direção, a uns oitocentos metros de distância. Será difícil. Parece que mal conseguiremo alcançar o canal a tempo, mal temos a chance de fazê-lo. Eles estarão bem atrás de nós.
Nós alcançamos o Hudson assim que começa a anoitecer e, ao fazê-lo, os comerciantes de escravos estão à plena vista. Estão a menos de cem metros atrás de nós e cada vez mais perto. Atrás deles, no horizonte, também vejo o outro barco, mesmo estando a um quilometro e meio de distância.
Tenho certeza de que, se tivéssemos mais tempo, Logan me diria te avisei. E ele estaria certo.
Assim que penso essas coisas, tiros são disparados. Balas passam por nós, atingindo a carcaça do barco, despedaçando madeira. Rose e Bree gritam.
“Abaixem-se!” eu berro.
Eu me lanço sobre Bree e Rose, as agarro e as jogo no chão. Logan, impressionantemente, sequer se encolhe, continua pilotando o barco. Ele desvia um pouco, mas não perde o controle. Ele se agacha enquanto pilota, tentando evitar as balas e também os pedaços de gelo que começam a surgir no rio.
Ajoelho-me na parte de trás do barco, levantando minha cabeça apenas o necessário, miro, ao estilo militar, com minha pistola. Quero atingir o piloto, disparo várias vezes.
Nenhum o atinge, mas, pelo menos, eles mudam de direção.
“Fique com o timão!” Logan grita para Ben.
Ben, para seu crédito, não hesita. Ele corre para a frente e fica co o timão, o barco vira um pouco ao fazê-lo.
Logan então corre para o meu lado, se ajoelhando.
Ele dispara e suas balas falham, atingindo o barco. Ele disparam contra nós e uma bala não me atinge por centímetros. Eles estão se aproximando rapidamente.
Outra bala arranca um grande pedaço de madeira da traseira do nosso barco.
“Eles estão disparando no nosso tanque de combustível!” Logan berra. “Mire no deles!”
“Onde fica?” eu grito mais alto que o ronco do motor e o som dos disparos no ar.
“Na parte de trás do barco, do lado esquerdo!” ele responde aos gritos.
“Eu não consigo visualizá-lo bem,” eu falo. “Não enquanto estiverem de frente para nós.”
De repente, tenho uma ideia.
“Ben!” eu chamo. “Você precisa fazer com que eles virem. Precisamos ter uma boa visão do tanque de combustível deles!”
Ben não hesita; eu mal termino de falar e ele já está girando o timão com tanta força que eu acabo caindo de lado no barco.
Os comerciantes de escravos viram também, tentando nos seguir. E isso expõe a lateral de seu barco.
Eu me ajoelho, assim como Logan e então disparamos vários tiros.
A princípio, nossas balam erram.
Vamos. Vamos!
Penso em papai. Mantenho meu pulso firme, respiro profundamente e atiro mais uma vez.
Para minha surpresa, faço um disparo certeiro.
O barco dos comerciantes de escravos explode. Meia dúzia de comerciantes de escravos presentes pega fogo e gritam enquanto o barco acelera fora de controle. Segundos depois, ele bate contra a costa.
Outra enorme explosão. O barco deles afunda rapidamente e, se alguém ainda estava vivo, agora deve estar se afogando no Hudson.
Ben nos direciona rio acima, nos mantém em linha reta; lentamente, dou um suspiro. Mal posso acreditar. Nós os matamos.
“Belo tiro,” Logan elogia.
Mas não temos tempo para descansar com a nossa vitória. Ao longe, cada vez mais perto, há outro barco. Duvido que tenham a mesma chance duas vezes.
“Estou sem munição,” eu falo.
“Também estou quase sem,” Logan diz.
“Não conseguiremos confrontar o próximo barco,” eu falo. “E não somos rápidos o suficiente para deixá-los para trás.”
“O que você sugere?” ele pergunta.
“Temos que nos esconder.”
Olho para Ben.
“Encontre um abrigo. Faça isso agora. Temos que esconder este barco. URGENTE!”
Ben acelera e eu vou para a frente do barco, fico ao seu lado, analisando o rio à procura de qualquer esconderijo. Talvez, se tivermos sorte, eles passarão por nós sem nos perceber.
Ou talvez não.
Todos nós examinamos o horizonte desesperadamente e, finalmente, à direita, vemos uma pequena abertura. Ela leva a um antigo porto de barcos, todo enferrujado.
“Ali, à direita!” eu falo para Ben.
“E se eles nos virem?” ele pergunta “Não teremos como sair. Estaremos presos. Eles irão nos matar.”
“É um risco que precisamos correr” eu respondo.
Ben pega mais velocidade e faz uma acentuada curva direcionando para a pequena abertura. Nós passamos pelos portões enferrujados, a entrada estreita é a abertura de um armazém. Quando atravessamos o portão, ele desliga o motor e então vira à esquerda, nos escondendo por trás da margem, enquanto balançamos à deriva. Olho para a movimentação que deixamos, sob a luz da lua, e rezo para que ela suavize o bastante para que os comerciantes de escravos não vejam nossos rastros.
Todos nós sentamos ansiosamente em silêncio, balançando na água, observando, esperando. O ronco do motor dos comerciantes de escravos vai ficando mais nítido e então eu seguro minha respiração.
Por favor, meu Deus. Deixe que eles passem por nós.
Os segundos parecem durar horas.
Finalmente, o barco deles desliza diante de nós, não desacelerando nem por um segundo.
Seguro minha respiração por mais dez segundos até o barulho do motor deles ficar débil, rezando que eles não voltem.
E eles não fazem. Funcionou.
Quase uma hora se passou desde que chegamos aqui, estamos todos amontoados juntos, exaustos, em nosso barco. Não nos movemos com medo de sermos detectados. Mas eu não ouço nenhum barulho desde então e não detectei nenhuma atividade desde que o barco deles passara por nós. Pergunto-me para onde eles foram. Será que ainda estão subindo o Hudson, em direção ao norte, na escuridão, ainda achando que estamos atrás da curva? Ou eles perceberam e estariam voltando, observando as margens dos rios, procurando por nós? Não deixo de pensar que é só uma questão de tempo para que eles voltem por este caminho.
Quando me estico no barco, penso que estamos começando a nos sentir mais relaxados, menos cautelosos. Estamos todos escondidos aqui, dentro desta estrutura enferrujada e, mesmo que eles retornem, não sei como eles poderiam nos encontrariam.
Minhas pernas e pés estão com câimbras de tanto ficar sentada, ficou muito mais frio e estou congelando. Posso ver pelo bater dos dentes de Bree e Rose que elas também estão. Eu gostaria que tivéssemos cobertor ou roupas para dar a elas, ou qualquer coisa que aquecesse. Gostaria que pudéssemos acender uma fogueira – não apenas para nos aquecer, mas também para que pudéssemos nos ver, nos confortar com uns rostos um dos outros. Mas sei que isso está fora de questão. Seria arriscado demais.
Vejo Ben sentado ali, encolhido, tremendo, e me lembro das calças que eu peguei. Levanto-me, o barco balança com força quando o faço, dou alguns passos em direção ao saco e tiro as calças de dentro. Eu as jogo para Ben.
Elas aterrissam em seu peito e ele olha para mim, confuso.
“Elas devem servir,” eu digo. “Experimente.”
Ele está usando jeans surrados, cheios de buracos, finos, e molhados com água. Aos poucos, ele se inclina e tira suas botas, então desliza as calças de couro por cima de seus jeans. Elas ficam engraçadas neles, as calças militares do comerciante de escravos – mas, como eu suspeitava, servem perfeitamente. Ele puxa o zíper, calado, enquanto se inclina para trás, e posso ver gratidão em seus olhos.
Sinto Logan olhando para mim e que ele está com ciúmes de minha amizade com Ben. Ele está assim desde que viu Ben me dar um beijo lá na Estação Penn. É esquisito, mas não há nada que eu possa fazer quanto a isso. Eu gosto dos dois, de diferentes jeitos. Nunca havia conhecido duas pessoas opostas – e, mesmo assim, de algum jeito, eles me lembram um ao outro.
Eu vou em direção a Bree, ainda tremendo, abraçada a Rose e com Penélope em seu colo, e me sento ao seu lado, coloco um braço em volta dela e a beijo na testa. Ela pousa a cabeça em meu ombro.
“Está tudo bem, Bree,” eu falo.
“Estou faminta,” ela me diz baixinho.
“Eu também,” Rose ecoa.
Penélope geme baixinho, e posso falar que ela também está com fome. É a cachorra mais inteligente que já conheci. E corajosa, apesar de seu tamanho. Mal consigo acreditar que ela mordeu Rupert quanto ela o fizera; se não fosse por ela, talvez nós não estivéssemos aqui. Eu me inclino e acaricio sua cabeça, ela me lambe de volta de satisfação.
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