Chegados á estação da Côrte, despediram se quasi familiarmente. Palha offereceu a sua casa em Santa Thereza; o ex-professor ia para a Hospedaria União, e prometteram visitar-se.
No dia seguinte, estava Rubião ancioso por ter ao pé de si o recente amigo da estrada de ferro, e determinou ir a Santa Thereza, á tarde; mas foi o proprio Palha que o procurou logo de manhã. Ia cumprimental-o, ver se estava bem alli, ou se preferia a casa delle, que ficava no alto. Rubião não acceitou a casa, mas acceitou o advogado, um contra-parente do Palha, que este lhe indicou, como um dos primeiros, apezar de muito moço.
—É aproveital-o, em quanto elle não exige que lhe paguem a fama.
Rubião fel-o almoçar, e acompanhou-o ao escriptorio do advogado, apezar dos protestos do cão, que queria ir tambem. Tudo se ajustou.
—Vá jantar logo commigo, em Santa Thereza, disse o Palha ao despedir-se. Não tem que hesitar, lá o espero, concluiu retirando-se.
Rubião tinha vexame, por causa de Sophia; não sabia haver-se com senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera de ser forte e implacavel. Foi jantar. Abençoada resolução! Onde acharia eguaes horas? Sophia era, em casa, muito melhor que no trem de ferro. Lá vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; cá trazia á vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos que eram bonitas, e um principio de braço. Demais, aqui era a dona da casa, fallava mais, desfazia-se em obsequios; Rubião desceu meio tonto.
Jantou lá muitas vezes. Era timido e acanhado. A frequencia attenuou a impressão dos primeiros dias. Mas trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que elle não podia extinguir. Emquanto durou o inventario, e principalmente a denuncia dada por alguem contra o testamento, allegando que o Quincas Borba, por manifesta demencia, não podia testar, o nosso Rubião distrahiu-se; mas a denuncia foi destruida, e o inventario caminhou rapidamente para a conclusão. Palha festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, alem dos tres, o advogado, o procurador e o escrivão. Sophia tinha nesse dia os mais bellos olhos do mundo.
—Parece que ella os compra em alguma fabrica mysteriosa, pensou Rubião, descendo o morro; nunca os vi como hoje.
Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi preciso alfaial-a, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a noticia, acompanhando-o ás lojas e leilões. Ás vezes, como já sabemos, iam os tres; porque ha cousas, dizia graciosamente Sophia, que só uma senhora escolhe bem. Rubião acceitava agradecido, e demorava o mais que podia as compras, consultando sem proposito, inventando necessidades, tudo para ter mais tempo a moça ao pé de si. Esta deixava-se estar, fallando, explicando, demonstrando.
Tudo isso passava agora pela cabeça do Rubião, depois do café, no mesmo logar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito longe. Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e soltal-o. Era a sua obrigação do todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.
—Mas que peccado é este que me persegue? pensava elle andando. Ella é casada, dá-se bem com o marido, o marido é meu amigo, tem-me confiança, como ninguem... Que tentações são estas?
Parava, e as tentações paravam tambem. Elle, um Santo Antão leigo, differençava-se do anachoreta em amar as suggestões do diabo, uma vez que teimassem muito. D'ahi a alternação dos monologos:
—É tão bonita! e parece querer-me tanto! Se aquillo não é gostar, não sei o que seja gostar. Aperta-me a mão com tanto agrado, com tanto calor... Não posso affastar-me; ainda que elles me deixem, eu é que não resisto.
Quincas Borba sentiu-lhe os passos, e começou a latir. Rubião deu-se pressa em soltal-o; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes daquella perseguição.
—Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.
O cão atirou-se fóra. Que alegria! que enthusiasmo! que saltos em volta do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um tabefe, que lhe doe; elle recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas; depois o senhor dá um estalinho com os dedos, e eil-o que volta novamente com a mesma alegria.
—Socega! socega!
Quincas Borba vae atraz delle pelo jardim fóra, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de vista. Aqui fareja, alli pára a coçar uma orelha, acolá cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra cousa, que anda agora de um lado para outro unicamente para fazel-o andar tambem, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando Rubião estaca, elle olha para cima, á espera; naturalmente, cuida delle; é alguma ideia, algum projecto, sairem juntos, ou cousa assim agradavel. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta a memoria das pancadas. Ao contrario, os affagos ficam-lhe impressos e fixos, por mais distrahidos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que o é.
A vida alli não é completamente boa nem completamente má. Ha um moleque que o lava todos os dias em agua fria, usança do diabo, a que elle se não acostuma. Jean, o cosinheiro, gosta do cão, o criado hespanhol não gosta nada. Rubião passa muitas horas fóra de casa, mas não o trata mal, e consente que vá acima, que assista ao almoço e ao jantar, que o acompanhe á sala ou ao gabinete. Brinca ás vezes com elle; fal-o pular. Se chegam visitas de alguma ceremonia, manda-o levar para dentro ou para baixo, e, resistindo elle sempre, o hespanhol toma-o a principio com muita delicadeza, mas vinga-se d'ahi a pouco, arrastando-o por uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhes todas as communicações com a casa:
—Perro del infierno!
Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vae então deitar-se a um canto, e fica alli muito tempo, calado; agita-se um pouco, até que acha posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéas, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se á do amigo actual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras ideias...
Mas já são muitas ideias,—-são ideias demais; em todo caso são ideias de cachorro, poeira de ideias,—menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa, que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre lingua humana!
Afinal adormece. Então as imagens da vida brincam nelle, em sonho, vagas, recentes, farrapo d'aqui remendo d'alli. Quando accorda, esqueceu o mal; tem em si uma expressão, que não digo seja melancolia, para não aggravar o leitor. Diz-se de uma paizagem que é melancolica, mas não se diz egual cousa de um cão. A razão não pode ser outra senão que a melancolia da paizagem está em nós mesmos, emquanto que attribuil-a ao cão é deixal-a fóra de nós. Seja o que fôr, é alguma cousa que não a alegria de ha pouco; mas venha um assobio do cosinheiro, ou um gesto do senhor, e lá vae tudo embora, os olhos brilham, o prazer arregaça-lhe o focinho, e as pernas voam que parecem azas.
Rubião passou o resto da manhã alegremente. Era domingo; dous amigos vieram almoçar com elle, um rapaz de vinte e quatro annos, que roia as primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta e quatro ou quarenta e seis, que ja não tinha que roer.
Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava de ambos, mas differentemente; não era só a edade que o ligava mais ao Freitas, era tambem a indole deste homem. Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma phrase particular, delicada, e sahia de lá com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que os preferia a quaesquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo armazem da rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe alli a historia do homem, a sua boa e má fortuna, mas não entraram em particularidades. Rubião torceu o nariz; era naturalmente algum naufrago, cuja convivencia não lhe traria nenhum prazer pessoal nem consideração publica. Mas o Freitas attenuou logo essa primeira impressão; era vivo, interessante, anecdotico, alegre como um homem que tivesse cincoenta contos de renda. Como Rubião fallasse das bonitas rosas que possuia, elle pediu-lhe licença para ir vel-as: era doudo por flores. Poucos dias depois appareceu lá, disse que ia ver as bellas rosas, eram poucos minutos, não se incommodasse o Rubião, se tinha que fazer. Rubião, ao contrario, gostou de ver que o homem não se esquecêra da conversação, desceu ao jardim onde elle ficara esperando, e foi mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiraveis; examinava-as com tal affinco que era preciso arrancal-o de uma roseira para leval-o a outra. Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas especies que o Rubião não tinha nem conhecia,—apontando e descrevendo, assim e assim, deste tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo pollegar e o index), e depois nomeava as pessoas que possuiam bons exemplares. Mas as do Rubião eram das melhores especies; esta, por exemplo, era rara, e aquella tambem, etc. O jardineiro ouvia-o com espanto. Tudo examinado, disse Rubião:
—Venha tomar alguma cousa. Que hade ser?
Freitas contentou-se com qualquer cousa. Chegando acima, achou a casa muito bem posta. Examinou os bronzes, os quadros, os moveis, olhou para o mar.
—Sim, senhor! disse elle, o senhor vive como um fidalgo.
Rubião sorriu; fidalgo, ainda por comparação, é palavra que se ouve bem. Veiu o creado hespanhol com a bandeija de prata, varios licores, e calices, e foi um bom momento para o Rubião. Offereceu elle mesmo, este ou aquelle licor; recommendou afinal um que lhe deram como superior a tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. O Freitas sorriu incredulo.
—Talvez seja encarecimento, disse elle.
Tomou o primeiro trago, saboreou-o devagar, depois segundo, depois terceiro. No fim, pasmado, confessou que era um primor. Onde é que comprara aquillo? Rubião respondeu que um amigo, dono de um grande armazem de vinhos, o presenteara com uma garrafa; elle, porém, gostou tanto que já encommendára tres duzias. Não tardou que se estreitassem as relações. E o Freitas vae alli almoçar ou jantar muitas vezes,—mais vezes ainda do que quer ou póde,—porque é difficil resistir a um homem tão obsequioso, tão amigo de ver caras amigas.
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