Tia estava num estado de felicidade completa enquanto a água quente lhe caía pelo corpo, formando espuma com o champô e o gel que encontrara no cesto de produtos de banho de aspeto muito caro na cómoda da casa de banho. Nunca desfrutara de um duche tão delicioso.
Quando saiu com o cabelo tapado por uma toalha e outra toalha à redor do corpo, sentiu-se renascida. Ainda não tivera tempo para se focar no que estava a acontecer porque tudo lhe parecia como um conto de fadas. Um príncipe que a deixava com falta de ar trouxera-a para ali.
Era incrivelmente bonito. E muito amável. Podia tê-la deixado perfeitamente na calçada com a mala estragada e ter-se afastado sem se preocupar.
Mas não o fizera: Levara-a para casa. E como podia dizer que não? Em toda a sua vida confinada e aborrecida, dedicada ao cuidado da sua pobre mãe e de outros, quando acontecera uma coisa dessas, exceto nas suas fantasias?
Tia ergueu o queixo e olhou-se ao espelho com decisão. Não sabia o que estava a acontecer, mas ia desfrutar do momento.
Virou-se e tirou a toalha da cabeça, deixando que o cabelo húmido caísse livre. Depois, procurou desesperadamente entre a roupa para encontrar alguma coisa que fosse melhor do que umas calças de ganga velhas e uma camisola larga. É claro que não tinha nada nem remotamente adequado, mas, pelo menos, melhoraria um pouco. Talvez não conseguisse parecer uma princesa de conto de fadas, mas esforçar-se-ia ao máximo.
Quando regressou àquela sala antiga e palaciana, dirigiu diretamente o olhar para a figura que parecia relaxada no sofá. Meu Deus, não podia ser mais bonito.
Tirara o casaco do fato formal e afrouxara a gravata. Desabotoara o colarinho da camisa e os botões de punho.
Levantou-se.
– Já estás aqui. – E sorriu. – Senta-te e desfruta do teu café.
Anatole apontou com a cabeça para o lugar onde pusera um prato de bolos que tirara do congelador e, depois, descongelara no micro-ondas. Agora, cheiravam deliciosamente.
– Estás a dieta ou posso tentar-te? – perguntou, num tom amável.
Anatole observou como corava novamente. Talvez não devesse ter usado a palavra «tentar». E, se Tia corava porque se sentia tentada, sem dúvida, ele também. E por uma boa razão…
Mudara de roupa e, embora continuasse a ser roupa barata, melhorara muito. Vestira uma saia vaporosa de algodão com desenhos índios e uma t-shirt azul-turquesa que mostrava muito melhor a sua figura do que a camisola larga que tinha antes. E lavara o cabelo, que lhe caía solto e frisado por cima dos ombros. Já não tinha os olhos vermelhos e deixara de parecer uma menina abandonada.
Sentou-se no sofá e as mãos tremeram ligeiramente quando agarrou na chávena de café que Anatole lhe servira, murmurando um agradecimento.
Bebeu-o depressa com a esperança de que lhe acalmasse os nervos agitados e os olhos dirigiram-se outra vez para Anatole. Ao olhar para ele, percebeu que também a observava com um sorriso desenhado nos lábios. Era um sorriso que lhe causou um arrepio.
– Come um bolo – convidou, aproximando o prato.
O cheiro a canela atingiu-a, recordando-lhe que não tivera oportunidade de comer durante o dia. Agarrou num com muito cuidado, aterrorizada com a ideia de deixar cair migalhas no tapete.
Anatole deslizou o olhar pelo seu rosto bonito em forma de coração, os olhos tão azuis, a curva delicada das sobrancelhas e o cabelo frisado.
Era linda. Olhar para ela deixava-o com falta de ar. Consultou o relógio. Eram quase sete. Podiam beber uma taça de champanhe no terraço, mas seria melhor encomendar o jantar primeiro.
Agarrou no computador e procurou a página que usava sempre para encomendar o jantar. Depois, virou o ecrã para Tia.
– Dá uma olhadela e diz-me o que queres jantar – pediu. – Vou encomendar.
Ela abanou a cabeça imediatamente.
– Ah, não, para mim não, obrigada. Estes bolos chegam-me.
– Bom, para mim, não – redarguiu Anatole, num tom amável. – Vá lá, dá uma olhadela. De que tipo de comida gostas? E não me digas que gostas de piza, chinesa ou indiana. Estou a falar de comida gourmet.
Tia olhou para as opções da página com os olhos esbugalhados. Não entendia a maioria.
– Queres que escolha por ti? – perguntou Anatole, ao perceber o seu dilema.
Ela assentiu, agradecida. Ambos se tinham inclinado para a frente para ver o ecrã e Anatole sentiu o cheiro fresco do corpo dela. A única coisa que tinha de fazer para tocar nela era levantar a mão e deslizá-la por aqueles caracóis, passar os dedos pela nuca e puxar a boca suave para a sua…
Endireitou-se bruscamente e entreteve-se a fazer o pedido. Depois, fechou o computador. Chegara o momento de ir buscar o champanhe.
Voltou uns instantes mais tarde com uma garrafa e duas taças na mão. Aproximou-se de uma porta de vidro e abriu-a.
– Vem ver a vista – convidou.
Tia levantou-se e seguiu-o para o terraço que era percorrido por uma balaustrada de pedra. Ainda estava confusa. Ia mesmo jantar com ela? Beber champanhe com ela? O coração acelerava só de pensar nisso.
Quando saiu, sentiu-se aconchegada pelo ar quente da noite. O sol ainda não se escondera por trás das copas das árvores do parque que havia mais à frente. O terraço era um pequeno oásis de plantas frondosas em vasos enormes de pedra.
– Oh, isto é lindo! – exclamou, com naturalidade. O rosto iluminou-se.
Anatole sorriu e sentiu uma pontada de prazer ao vê-la tão contente. Deixou as taças de champanhe numa mesinha de ferro ladeada por duas cadeiras.
– Um refúgio ajardinado – disse. – As cidades não são os meus lugares favoritos, portanto, quando me vejo obrigado a estar nelas, gosto de estar em sítios o mais verdes possível. Essa é uma das razões por que gosto das águas-furtadas: Têm terraços.
Anatole abriu a garrafa de champanhe e, depois, passou-lhe uma das taças vazias.
– Mantém-na ligeiramente inclinada – pediu, enquanto a enchia até meio. Depois, fez o mesmo com a dele e olhou para Tia. Era muito bela e, por alguma razão, isso despertou nele um instinto de proteção.
Algo bastante estranho nele. Não costumava acontecer-lhe com as mulheres.
– Yammas – brindou, levantando a taça. – Significa «saúde» em grego.
– Ah, portanto, és grego! Sabia que devias ser estrangeiro pelo apelido, mas não sabia que… – Ficou corada. Teria parecido uma mal-educada? Londres era incrivelmente multicultural. Não havia razão para dizer que era estrangeiro – Lamento. Não queria dizer…
– Sim, sou estrangeiro – confirmou ele, num tom cordial. – A minha nacionalidade é grega. Mas trabalho muito em Londres porque é um centro financeiro muito importante. Vivo na Grécia. Conheces? Talvez de algumas férias? – E sorriu, queria que Tia voltasse a sentir-se confortável.
Tia abanou a cabeça.
– Passávamos o verão em Espanha quando eu era pequena – disse, desviando o olhar. – Quando o meu pai ainda era vivo e a minha mãe não estava doente.
– É bom ter boas lembranças da infância, sobretudo, das férias familiares – murmurou Anatole.
Mas ele não as tinha. As férias escolares do internato suíço exclusivo em que vivia desde os sete anos eram passadas em casa de amigos ou na mansão enorme dos Kyrgiakis em Atenas com a única companhia dos empregados. Os pais estavam demasiado ocupados com as suas próprias vidas.
Quando chegara à adolescência, passara algumas semanas com o tio, o irmão mais velho do seu pai. Vasilis nunca mostrara nenhum interesse pelos negócios ou pelas finanças. Era um erudito que adorava perder-se em bibliotecas e museus. Usava o dinheiro dos Kyrgiakis para financiar investigações arqueológicas e projetos artísticos. Desaprovava a conduta imoral do irmão no amor, mas nunca o criticava abertamente. Era um solteiro empedernido e Anatole achava que era amável, mas distante. Com o tempo, começara a valorizar a sua sensatez.
– Bom, à tua primeira viagem à Grécia. De certeza que irás algum dia – replicou, voltando ao momento e brindando suavemente com Tia.
Bebeu um gole pequeno enquanto olhava para o homem que tinha à frente e que a apanhara na rua para a levar para o seu apartamento lindo e beber champanhe… pela primeira vez na sua vida.
Custava-lhe acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. Talvez aquele único gole de champanhe a tivesse tornado ousada, porque disse precipitadamente:
– É incrivelmente amável da tua parte!
«Amável?» Aquela palavra não condizia com Anatole. O que estava a fazer era deixar-se levar pelo que lhe apetecia fazer. Voltou a levantar a taça. Naquele momento, não se importava. Tinha a atenção fixa naquela mulher linda tão jovem, tão fresca e tão cativante na sua naturalidade. Não estava a pôr em prática nenhuma artimanha para o atrair, não lhe fazia olhinhos nem pedia nada dele.
Anatole sorriu e a expressão suavizou-se.
– Bebe um pouco mais – indicou. – Temos a garrafa toda. – Bebeu um gole da taça e encorajou-a a fazer o mesmo.
Tia bebeu enquanto olhava para a vista maravilhosa.
– E diz-me – pediu Anatole, enchendo as taças –, o que queres fazer na vida? Sei que tomar conta de idosos é importante, mas suponho que não queiras fazê-lo para sempre, pois não?
Ao fazer aquela pergunta, apercebeu-se de nunca conhecera alguém do seu estrato social. Todas as mulheres com quem lidava eram profissionais de alto perfil ou filhas do papá com dinheiro. Espécies completamente diferentes daquela jovem que tinha um trabalho triste e árduo.
Tia mordeu o lábio inferior, sentindo-se um pouco incomodada.
– Bom, passava muito tempo fora da escola porque tinha de cuidar da minha mãe e nunca passava nos exames, portanto, não pude ir para a universidade. E, embora esteja a tentar poupar, ainda não consigo comprar uma casa própria.
– Não tens família que te ajude? – Anatole franziu o sobrolho.
Ela abanou a cabeça.
– Vivia com o meu pai e a minha mãe.
Tia olhou para ele. Bebera quase uma taça inteira de champanhe e sentia-se atrevida. Talvez aquilo fosse um sonho, mas ia desfrutar até ao fim.
– E tu? – perguntou. – As famílias gregas costumam ser numerosas, não é?
Anatole sorriu sem vontade.
– A minha, não – declarou. – Eu também sou filho único. – Olhou para a taça de champanhe. – Os meus pais divorciaram-se e estão casados com outras pessoas agora. Não os vejo muito.
Porque não queria. Nem eles. A única reunião fixa da família Kyrgiakis era a reunião anual de acionistas. Era quando se encontravam: Ele, os pais, o tio e algum primo afastado.
– Ena, é uma pena – murmurou ela, com simpatia.
Sentiu um calafrio desagradável. Não gostava de pensar que os homens de fantasia como aquele podiam ter famílias disfuncionais como as pessoas normais. Vivendo em lugares tão magníficos como aquele e bebendo champanhe, não poderiam ter os mesmos problemas do que as pessoas normais.
– Não é para tanto. – Anatole voltou a sorrir. – Estou habituado.
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