E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos.
—Voltar a Cabo-Verde outra vez!
—Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!—disse o snr. Eleutério Peres.
Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida, voltar às longas misérias de{33} Cabo-Verde, tornar a tremer os passados desesperos, suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. Depois, rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu até ao primeiro andar, mas aí tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar o desastre, o pavor trémulo de uma separação, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela esperar mais? Não se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a xácara mourisca. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom sol claro que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a sua antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes dali vira Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela, no segundo andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, à vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a vélha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, que estava por cima da barra do leito; a sala de{34} jantar e o seu vélho aparador de pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:
—Quem é?
—Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.
A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão. Macário achou-o magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão.
—Suba—disse o tio.
Macário ia calado, cosido com o corrimão.
Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.
Macário estava calado, anediando a barba.
—Que quer?—gritou-lhe o tio.
—Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.
—Boa viagem.
E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça.
Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
—¿Onde vai, seu estúpido?—gritou-lhe o tio.
—Vou-me.{35}
—Sente-se ali!
E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:
—O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde! Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. Levante dinheiro. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita.
Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo.
—Bem, bem. Adeus!
Macário ia sair.
—¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga do Pôrto e biscoitos.
—Côma!
E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.
De sorte que o casamento foi decidido para{36} dali a um mês. E Luísa começou a tratar do seu enxoval.
Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre em casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela lojas, êle mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha ficado numa modista, num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.
O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador.
—Que bonito dia!—disse Macário.
E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.
—Está!—disse ela.—Mas podem reparar; nós sós...
—Deixa, está tam bom...
—Não, não.
E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.
Macário disse-lhe:
—Queria ver aneis.
—Com pedras—disse Luísa—e o mais bonito.{37}
—Sim, com pedras—disse Macário.—Ametista, granada. Emfim, o melhor.
E, no entanto, Luísa ia examinando as montres forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os aneis, as finas alianças frágeis como o amor, e toda a scintilação da pesada ourivesaria.
—Vê, Luísa—disse Macário.
O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro da montre, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras, lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas dos dedos, ia-os correndo e dizendo:
—É feio... É pesado... É largo...
—Vê este—disse-lhe Macário.
Era um anel de pequenas pérolas.
—É bonito—respondeu ela.—É lindo!
—Deixa ver se serve—tornou Macário.
E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.
—É muito largo—disse Macário.—Que pena!
—Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto àmanhã.
—Boa idea—disse Macário—sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade? As{38} pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E êstes brincos?—acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra montre.—¿Êstes brincos com uma concha?
—Dez moedas—disse o caixeiro.
E, no entanto, Luísa continuava examinando os aneis, experimentando-os em todos os dedos, revolvendo aquela delicada montre, scintilante e preciosa.
Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, passeando vagarosamente a mão pela cara.
—Bem—disse Macário, aproximando-se—então àmanhã temos o anel pronto. A que horas?
O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.
—A que horas?
—Ao meio dia.
—Bem, adeus—disse Macário.
E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas estavam escondidas num regalo branco.
—Perdão!—disse de repente o caixeiro.
Macário voltou-se.
—O senhor não pagou...
Macário olhou para êle gravemente.
—Está claro que não. Àmanhã venho buscar o anel, pago àmanhã.{39}
—Perdão!—insistiu o caixeiro—mas o outro...
—Qual outro?—exclamou Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para o balcão.
—Essa senhora sabe—afirmou o caixeiro.—Essa senhora sabe...
Macário tirou a carteira lentamente.
—Perdão, se há uma conta antiga...
O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:
—Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.
—Eu!—disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.
—Que é? Que está a dizer?
E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro coléricamente.
O caixeiro disse então:
—Essa senhora tirou dali um anel.
Macário ficou imóvel, encarando-o.
—Um anel com dois brilhantes—continuou o rapaz.—Vi perfeitamente.
O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente.
—Essa senhora não sei quem é. Mas tirou o anel. Tirou-o dali...
Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa, com a palavra{40} abafada, gotas de suor na testa, lívido:
—Luísa, dize...
Mas a voz cortou-se-lhe.
—Eu...—balbuciou ela, trémula, assombrada, enfiada, decomposta.
E deixou cair o regalo no chão.
Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto era tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mão no bôlso, bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:
—Não me faça mal!—suplicou, encolhendo-se toda.
Macário ficou com os braços caidos, o ar abstracto, os beiços brancos; mas de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:
—Tem razão. Era distracção... Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. É o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma, filha, toma. Deixa estar, êste senhor embrulha-o. Quanto custa?
Abriu a carteira e pagou.
Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o lenço, deu o braço a Luísa, e dizendo ao caixeiro: desculpe, desculpe, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta.
Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas{41} passavam, conversando: os pregões subiam em gritos alegres: um cavaleiro de calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.
Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, a sua linda mão de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a mão direita, e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava, para esta noite, Palafoz em Saragoça.
De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:
—Vai-te.
—Ouve!...—rogou ela, com a cabeça toda inclinada.
—Vai-te.—E com a voz abafada e terrível:—Vai-te! Olha que chamo. Mando-te para o Aljube. Vai-te.
—Mas ouve, Jesus!
—Vai-te!—E fez um gesto, com o punho cerrado.
—Pelo amor de Deus, não me batas aqui!—disse ela, sufocada.
—Vai-te! Podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te!
E chegando-se para ela, disse baixo:
—És uma ladra!{42}
E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a bengala.
A distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.
Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga loura.{43}
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