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Eça de Queirós

A Relíquia


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066406011

Índice de conteúdo

I

II

III

IV

V

Decidi compôr, nos vagares d'este verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Landoso) as memorias da minha Vida—que n'este seculo, tão consumido pelas incertezas da Intelligencia e tão angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Chrispim, uma lição lucida e forte.

Em 1875, nas vesperas de Santo Antonio, uma desillusão de incomparavel amargura abalou o meu sêr: por esse tempo minha tia D. Patrocinio das Neves mandou-me do Campo de Sant'Anna, onde moravamos, em romagem a Jerusalem: dentro d'essas santas muralhas, n'um dia abrazado do mez de Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa, Elius Lamma legado imperial da Syria e J. Kaiapha Summo Pontifice testemunhei, miraculosamente, escandalosos successos: depois voltei—e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral.

São estes casos—espaçados e altos n'uma existencia de bacharel como, em campo de herva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e murmurio—que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, emquanto no meu telhado voam as andorinhas, e as moitas de cravos vermelhos perfumam o meu pomar.

Esta jornada á terra do Egypto e á Palestina permanecerá sempre como a gloria superior da minha carreira; e bem desejaria que d'ella ficasse nas Lettras, para a Posteridade, um monumento airoso e macisso. Mas hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituaes, pretendi que as paginas intimas em que a relembro se não assemelhassem a um Guia Pittoresco do Oriente. Por isso (apesar das solicitações da vaidade) supprimi n'este manuscripto succulentas, resplandecentes narrativas de Ruinas e de Costumes…

De resto esse paiz do Evangelho, que tanto fascina a humanidade sensivel, é bem menos interessante que o meu sêcco e paterno Alemtejo: nem me parece que as terras favorecidas por uma presença Messianica ganhem jámais em graça ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os Lugares Santos da India em que o Budha viveu—arvoredos de Migadaia, outeiros de Veluvana, ou esse dôce valle de Rajagria por onde se alongavam os olhos adoraveis do Mestre perfeito quando um fogo rebentou nos juncaes, e Elle ensinou, em singela parabola, como a Ignorancia é uma fogueira que devora o homem—alimentada pelas enganosas sensações de Vida que os sentidos recebem das enganosas apparencias do Mundo. Tambem não visitei a caverna d'Hira, nem os devotos areaes entre Meca e Medina que tantas vezes trilhou Mahomet, o Propheta Excellente, lento e pensativo sobre o seu dromedario. Mas, desde as figueiras de Bethania até ás aguas caladas de Galilêa, conheço bem os sitios onde habitou esse outro Intermediario divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus-Nosso-Senhor:—e só n'elles achei bruteza, seccura, sordidez, soledade e entulho.

Jerusalem é uma villa turca, com viellas andrajosas, acaçapada entre muralhas côr de lôdo, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.

O Jordão, fio d'agua barrento e pêco que se arrasta entre areaes, nem póde ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia vêde! estas meigas aguas portuguezas não correram jámais entre os joelhos d'um Messias, nem jámais as roçaram as azas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do céo á terra as ameaças do Altissimo!

Entretanto como ha espiritos insaciaveis que, lendo d'uma jornada pelas terras da Escriptura, anhelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao preço da cerveja—eu recommendo a obra copiosa e luminosa do meu companheiro de romagem, o allemão Topsius, doutor pela Universidade de Bonn e membro do Instituto Imperial de Excavações Historicas. São sete volumes in-quarto, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo fino e profundo—Jerusalem Passeada e Commentada.

Em cada pagina d'esse solido Itinerario o douto Topsius falla de mim, com admiração e com saudade. Denomina-me sempre o illustre fidalgo lusitano; e a fidalguia do seu camarada, que elle faz remontar aos Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. Além d'isso o esclarecido Topsius aproveita-me, através d'esses repletos volumes, para pendurar ficticiamente, nos meus labios e no meu craneo, dizeres e juizos ensopados de beata e babosa credulidade—que elle logo rebate e derroca com sagacidade e facundia! Diz, por exemplo:—«Diante de tal ruina, do tempo da Cruzada de Godofredo, o illustre fidalgo lusitano pretendia que Nosso Senhor, indo um dia com a Santa Veronica…»—E logo alastra a tremenda, turgida argumentação com que me deliu. Como porém as arengas que me attribue não são inferiores em sabio chorume e arrogancia theologica ás de Bossuet, eu não denunciei n'uma nota á Gazeta de Colonia—por que tortuoso artificio a afiada razão da Germania se enfeita assim de triumphos sobre a romba fé do Meio-Dia.

Ha porém um ponto de Jerusalem Passeada que não posso deixar sem energica contestação. É quando o doutissimo Topsius allude a dois embrulhos de papel, que me acompanharam e me occuparam, na minha peregrinação, desde as viellas de Alexandria até ás quebradas do Carmello. N'aquella fórma rotunda que caracterisa a sua eloquencia universitaria, o dr. Topsius diz:—«O illustre fidalgo lusitano transportava alli restos dos seus antepassados, recolhidos por elle, antes de deixar o sólo sacro da patria, no seu velho solar torreado!…» Maneira de dizer singularmente fallaz e censuravel! Porque faz suppôr á Allemanha erudita que eu viajava pelas terras do Evangelho—trazendo embrulhados n'um papel pardo os ossos dos meus avós!

Nenhuma outra imputação me poderia tanto desaprazer e desconvir. Não por me denunciar á Egreja como um profanador leviano de sepulturas domesticas: menos me pezam a mim, commendador e proprietario, as fulminações da Egreja—que as folhas sêccas que ás vezes cahem sobre o meu guardasol de cima d'um ramo morto: nem realmente a Egreja, depois de ter embolsado os seus emolumentos por enterrar um mólho d'ossos, se importa que elles para sempre jazam resguardados sob a rigida paz d'um marmore eterno, ou que andem chocalhados nas dobras molles d'um papel pardo. Mas a afirmação de Topsius desacredita-me perante a Burguezia Liberal:—e só da Burguezia Liberal, omnipresente e omnipotente, se alcançam, n'estes tempos de semitismo e de capitalismo, as coisas boas da vida, desde os empregos nos bancos até ás commendas da Conceição. Eu tenho filhos, tenho ambições. Ora a Burguezia Liberal aprecia, recolhe, assimila com alacridade um cavalheiro ornado de avoengos e solares: é o vinho precioso e velho que vai apurar o vinho novo e crú: mas com razão detesta o bacharel, filho d'algo, que passeie por diante d'ella, enfunado e têso, com as mãos carregadas de ossos de antepassados—como um sarcasmo mudo aos antepassados e aos ossos que a ella lhe faltam.

Por isso intímo o meu douto Topsius (que com seus penetrantes oculos viu formar os meus embrulhos, já na terra do Egypto, já na terra de Canaan) a que na edição segunda de Jerusalem Passeada, sacudindo pudicos escrupulos de Academico e estreitos desdens de Philosopho, divulgue á Allemanha scientifica e á Allemanha sentimental qual era o recheio que continham esses papeis pardos—tão francamente como eu o revelo aos meus concidadãos n'estas paginas de repouso e de ferias, onde a Realidade sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da Historia, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da Farça!

I

Índice de conteúdo

Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em theologia, author de uma devota Vida de Santa Philomena, e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assumpção, chamava-se Rufino da Assumpção Raposo—e vivia em Evora com a minha avó, Philomena Raposo, por alcunha a «Repolhuda,» doceira na rua do Lagar dos Dizimos. O papá tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no Pharol do Alemtejo.

Em 1853, um ecclesiastico illustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de Chorazin (que é em Galilêa), veio passae o S. João a Evora, a casa do conego Pitta, onde o papá muitas vezes á noite costumava ir tocar violão. Por cortezia com os dois sacerdotes, o papá publicou no Pharol uma chronica, laboriosamente respigada no Peculio de Prégadores, felicitando Evora «pela dita d'abrigar em seus muros o insigne prelado D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclarissima torre de santidade.» O bispo de Chorazin recortou este pedaço do Pharol para o metter entre as folhas do seu Breviario; e tudo no papá lhe começou a agradar, até o aceio da sua roupa branca, até a graça chorosa com que elle cantava, acompanhando-se no violão, a xacara do conde Ordonho. Mas quando soube que este Rufino da Assumpção, tão moreno e sympathico, era o afilhado carnal do seu velho Rufino da Conceição, camarada de estudos no bom Seminario de S. José e nas veredas theologicas da Universidade, a sua affeição pelo papá tornou-se extremosa. Antes de partir de Evora deu-lhe um relogio de prata; e, por influencia d'elle, o papá, depois de arrastar alguns mezes a sua madraçaria pela alfandega do Porto, como aspirante, foi nomeado, escandalosamente, director da alfandega de Vianna.

As macieiras cobriam-se de flôr quando o papá chegou ás veigas suaves d'Entre-Minho-e-Lima; e logo n'esse julho conheceu um cavalheiro de Lisboa, o commendador G. Godinho, que estava passando o verão com duas sobrinhas, junto ao rio, n'uma quinta chamada o Mosteiro, antigo solar dos condes de Lindoso. A mais velha d'estas senhoras, D. Maria do Patrocinio, usava oculos escuros, e vinha todas as manhãs da quinta á cidade, n'um burrinho, com o criado de farda, ouvir missa a Sant'Anna. A outra, D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa, sabia de cór os versos do Amor e Melancolia, e passava horas, á beira da agua, entre a sombra dos amieiros, rojando o vestido branco pelas relvas, a fazer raminhos silvestres.

O papá começou a frequentar o Mosteiro. Um guarda da alfandega levava-lhe o violão; e emquanto o commendador e outro amigo da casa, o Margaride, doutor delegado, se embebiam n'uma partida de gamão, e D. Maria do Patrocinio rezava em cima o terço—o papá, na varanda, ao lado de D. Rosa, defronte da lua, redonda e branca sobre o rio, fazia gemer no silencio os bordões e dizia as tristezas do conde Ordonho. Outras vezes jogava elle a partida de gamão: D. Rosa, sentava-se então ao pé do titi, com uma flôr nos cabellos, um livro cahido no regaço; e o papá, chocalhando os dados, sentia a caricia promettedora dos seus olhos pestanudos.

Casaram. Eu nasci n'uma tarde de sexta-feira de Paixão; e a mamã morreu, ao estalarem, na manhã alegre, os foguetes da Alleluia. Jaz, coberta de goivos, no cemiterio de Vianna, n'uma rua junto ao muro, humida da sombra dos chorões, onde ella gostava de ir passear nas tardes de verão, vestida de branco, com a sua cadellinha felpuda que se chamava Traviata.

O commendador e D. Maria não voltaram ao Mosteiro. Eu cresci, tive o sarampo; o papá engordava; e o seu violão dormia, esquecido ao canto da sala, dentro d'um sacco de baeta verde. N'um julho de grande calor, a minha criada Gervasia vestiu-me o fato pesado de velludilho preto; o papá poz um fumo no chapéo de palha; era o luto do commendador G. Godinho a quem o papá muitas vezes chamava, por entre dentes, «malandro.»

Depois, n'uma noite de entrudo, o papá morreu de repente, com uma apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado d'urso, para ir ao baile das senhoras Macedos.

Eu fazia então sete annos; e lembro-me de ter visto, ao outro dia, no nosso pateo, uma senhora alta e gorda, com uma mantilha rica de renda negra, a soluçar diante das manchas de sangue do papá, que ninguem lavára, e já tinham seccado nas lages. Á porta uma velha esperava, rezando, encolhida no seu mantéo de baetilha.

As janellas da frente da casa foram fechadas; no corredor escuro, sobre um banco, um candieiro de latão ficou dando a sua luzinha de capella, fumarenta e mortal. Ventava e chovia. Pela vidraça da cozinha, emquanto a Marianna, choramigando, abanava o fogareiro, eu vi passar no largo da Senhora da Agonia, o homem que trazia ás costas o caixão do papá. No alto frio do monte a capellinha da Senhora, com a sua cruz negra, parecia mais triste ainda, branca e nua, entre os pinheiros, quasi a sumir-se na nevoa; e adiante, onde estão as rochas, gemia e rolava, sem descontinuar, um grande mar d'inverno.

Á noite, no quarto de engommar, a minha criada Gervasia sentou-me no chão, embrulhado n'um saiote. De quando em quando, rangiam no corredor as botas do João, guarda da alfandega, que andava a defumar com alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão de ló. Adormeci: e logo achei-me a caminhar á beira d'um rio claro, onde os choupos, já muito velhos, pareciam, ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia andando um homem nú, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos, que era Jesus, Nosso Senhor.

Passados dias, acordaram-me, n'uma madrugada em que a janella do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenuncio de coisa santa. Ao lado da cama, um sujeito risonho e gordo fazia-me cocegas nos pés com ternura e chamava-me bréjeirote. A Gervasia disse-me que era o snr. Mathias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocinio: e o snr. Mathias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rôtas que me calçára a Gervasia. Embrulharam-me no chale-manta cinzento do papá; o João, guarda da alfandega, trouxe-me ao collo até á porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas d'oleado.

Começámos então a caminhar por compridas estradas. Mesmo adormecido, eu sentia as lentas campainhas dos machos: e o snr. Mathias, defronte de mim, fazia-me de vez em quando uma festinha na cara, e dizia: «Ora cá vamos.» Uma tarde, ao escurecer, parámos de repente n'um sitio ermo, onde havia um lamaçal; o liteireiro, furioso, praguejava, sacudindo o archote acceso. Em redor, dolente e negro, rumorejava um pinheiral. O snr. Mathias, enfiado, tirou o relogio da algibeira e escondeu-o no cano da bota.

Uma noite, atravessámos uma cidade onde os candieiros da rua tinham uma luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira, da fórma d'uma tulipa aberta. Na estalagem em que apeámos, o criado, chamado Gonçalves, conhecia o snr. Mathias: e depois de nos trazer os bifes, ficou familiarmente encostado á mesa, de guardanapo ao hombro, contando coisas do snr. barão, e da ingleza do snr. barão. Quando recolhiamos ao quarto, alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor forte de sêdas claras, espalhando um aroma d'almiscar. Era a ingleza do snr. barão. No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava n'ella, rezando Ave-Marias. Nunca roçára corpo tão bello, d'um perfume tão penetrante: ella era cheia de graça, o Senhor estava com ella, e passava, bemdita entre as mulheres, com um rumor de sêdas claras…

Depois, partimos n'um grande coche que tinha as armas do rei, e rolava a direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de quatro cavallos gordos. O snr. Mathias, de chinelas nos pés e tomando a sua pitada, dizia-me, aqui e além, o nome d'uma povoação aninhada em torno d'uma velha igreja, na frescura d'um valle. Ao entardecer, por vezes, n'uma encosta, as janellas d'uma calma vivenda faiscavam com um fulgor d'ouro novo. O coche passava; a casa ficava adormecendo entre as arvores; através dos vidros embaciados eu via luzir a estrella de Venus. Alta noite tocava uma corneta; e entravamos, atroando as calçadas, n'uma villa adormecida. Defronte do portão da estalagem moviam-se silenciosamente lanternas mortiças. Em cima, n'uma sala aconchegada, com a mesa cheia de talheres, fumegavam as terrinas; os passageiros, arripiados, bocejavam, tirando as luvas grossas de lã; e eu comia o meu caldo de gallinha, estremunhado e sem vontade, ao lado do snr. Mathias, que conhecia sempre algum moço, perguntava pelo doutor delegado, ou queria saber como iam as obras da camara.

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