Читать книгу «Estrellas Funestas» онлайн полностью📖 — Camilo Castelo Branco — MyBook.
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Aqui temos, pois, os dois noivos, face a face, quando o enxoval da esposada está prompto, e o palacete do moço se preparava, e os primos de longe teem já convite para dia designado.

Maria das Dôres teve a innocente coragem de dizer a seus paes que aborrecia o primo Gonçalo.

—És tola!—disse-lhe o pae.

—És uma creança!—accrescentou a mãe.

E continuaram a azafama, para que tudo sobejasse nos festejos nupciaes, excepto a alegria dos desposados. Gonçalo Malafaya ousou ainda contrariar a vontade paternal,{17} dizendo a medo, que um casamento assim não promettia senão desgraças. O velho rebateu victoriosamente a frioleira do filho, contando-lhe em miudos a historia do seu casamento, e do casamento de seu pae, e de seu avô. Eram tres historias, que o leitor dispensa saber, e tem razão. A moralidade de todas era que tanto elle, como seus illustres pae e avô, tinham casado com primas, sem amor nem vontade, e com muita repugnancia; e, apesar de tudo, tinham vivido felizes, ou pelo menos resignados, visto que, ajuntava o velho, o coração pouco tem que ver com o casamento, e casamento será tudo quanto ha mau, mas escravidão de certo não é. E a este proposito, discorreu o velho Malafaya alguns despropositos, que iam mal a seus cabellos brancos, e bem podiam chamar-se o prefacio desmoralisador de um casamento. Porém, como estas causas, postas em balança com a indisposição matrimonial do filho, inclinassem para o peor lado o fiel, o velho cuidou equilibrar os pratos lançando no mais leve os vinculos litigaveis de Freijoim e Aguas Santas, os quaes rendiam seis mil cruzados, e estavam na casa com mui duvidosa legalidade.

Na ante-vespera do casamento, as duas familias, lavradas as escripturas para segurança dos bens livres, foram de passeio, Douro acima, á Pedra Salgada, onde um dos contrahentes tinha uma quinta.

Era pelo tempo do savel. Os pescadores de Valbom carregavam nos barcos as redadas da sua pescaria, Maria das Dôres entretinha-se a contemplar a labutação dos{18} pescadores, e as rimas de peixe extendidas no areal. Aguilhoada pelo appetite, exclamou:

—Ó minha mãe! tenho vontade de comer savel; mande comprar um, que eu tenho vontade de savel assado!

Toda a gente riu urbanamente do appetite da menina, excepto Gonçalo que, em sua consciencia, classificou de grosseirismo o desejo, e muito boçal a maneira de o exprimir. Então, para seu maior flagello, lhe acudiu á idéa a recordação de uma merenda a que assistira em Cintra com a filha do conde; na qual merenda de indelevel saudade, a perfumada e espiritual menina escassamente comeu um terço da aza de pombo, um olho de alface, e dois gomos de laranja, e, ainda assim, a pedido do amantissimo Gonçalo; que, se elle não insta, áquella compleição angelica bastaria o cheiro da madresilva. Se ao menos, Maria das Dôres tivesse cobiça de savel, e o não comesse!... Seria um gosto pueril, sem o desagradavel espectaculo da deglutição, em que ella era de todo o ponto natural, sem ter na menor conta os preceitos da cerimonia, que mandam engulir tão subtilmente que nos não ouçam o rumor do mastigar. Maria das Dôres mastigava o savel com a presteza de mandibulas egual á impaciencia do seu appetite. Comeu, antes de jantar, na presença do noivo e dos numerosos parentes, duas grossas postas do pescado, como a filha do conde de Lisboa, em identicas circumstancias, ouviria em delicias, duas odes anacreonticas, recitadas pelo noivo á sombra dos arvoredos da sua Cintra.{19}

Ora eu que, até certo ponto, não estabeleço estremas entre as mulheres, e as julgo eguaes perante a lei do amor honesto, opponho-me á distincção, que Gonçalo fazia entre as duas senhoras. O meu parecer é que se Maria das Dôres amasse o primo, comeria apenas o terço da aza do pombo, e o olho da alface, e os dois gomos de laranja; e que a filha do conde, se não amasse Gonçalo, comeria as postas do savel fresco, se o tivesse em Cintra. A sciencia ha de andar sempre ás aranhas n'estes mysterios do coração relacionados com o funccionalismo do estomago.

Depois do jantar, durante o qual a morgada demonstrou que o sável fôra um prologo curto de um grande livro, Gonçalo retirou-se com a sua dôr a um recanto da quinta, onde havia um tanque, em que nadavam patos, á sombra de copados chorões. Indo Maria das Dôres vêr rebanharem-se os seus patos, deu de rosto com o primo, que estava lendo umas cartas, já avincadas do muito uso.

—Estavas aqui?!—disse ella, em ar de retroceder.

—Vem cá, prima Maria das Dôres—disse elle emmassando as cartas na carteira de marroquim.—Senta-te ao pé de mim.

A menina foi sentar-se ao pé d'elle, atirando migalhas de cavacas de Arouca aos patos.

—Gosto tanto destas aves!—disse ella. Creei-as no convento, e trouxe-as comigo. Olha como ellas me conhecem!...

—Hei-de mandar vir de Lisboa—disse Gonçalo—um{20} casal de patos reaes, para te dar, prima, que são muito lindos.

—Eu gosto mais d'estes—atalhou ella.

—Mas, se eu te der outros, tambem has-de gostar d'elles, prima Maria das Dôres?

—Tambem, mas estes fui eu que os creei, e os outros já de lá vem creados pela filha do conde provavelmente...

Fez Gonçalo um gesto de espanto, e de zanga, vendo a ironia mais expressiva no rosto que nas palavras da prima.

—A que veiu aqui a filha do conde!?—disse elle com azedume.

—É que tu estás sempre, a proposito de tudo, com a filha do conde ás voltas. Ninguem veste, nem fala, nem anda como ella. Se a prima Peixoto faz um rico vestido, a filha do conde tem um mais rico. Se eu compro um collar de granadas, a filha do conde tinha um de esmeraldas. Se a prima de Simães vem á cidade vestida de campo, como se vestem na França as damas da côrte, a filha do conde é que sabia vestir-se a preceito, quando cavalgava por Cintra, com admiração de toda a gente. É sempre a filha do conde para tudo! Por isso é que pensei que os patos reaes tambem eram da filha do conde.

Gonçalo Malafaya ficou atordoado, já pela affronta feita á mulher cujas cartas apaixonadas estivera lendo, já pela extranheza que lhe causou o desembaraço da menina, que, até áquella hora, simulára completa indifferença,{21} ouvindo-o falar da filha do conde de Miranda. Fez-se, porém, uma instantanea mudança no espirito do noivo, saudavel mudança que lhe lisongeou a vaidade. Julgou elle que Maria o accusava de desleal, e de puro ciume rompia n'aquella insolita ironia contra a lisbonense. Isto, que parece nada, foi grande parte na quietação de Gonçalo. O ciume da mulher, de quem se não espera nem pede amor, é uma revelação agradavel, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do coração.

Depois de alguns instantes de silencio durante os quaes Maria continuava a esmigalhar cavacas aos seus dilectos patos, disse Gonçalo:

—Eu tenho falado na filha do conde de Miranda por que ella é o ornamento da côrte e o modélo das fidalgas.

—Deixa'-la ser...—atalhou Maria—Que tenho eu com isso? Eu cá, visto, e ando, e falo como sei, ou como me ensinaram; e ella faz o mesmo; se o faz melhor, seu proveito. Por que não casaste com ella, primo?

—Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que não casaste com o Magalhães de Amarante?

Maria córou, e deu graças ao seu anjo da guarda, quando viu entre as arvores proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos noivos.

Gonçalo apenas teve tempo de lhe dizer:

—Não te parece que a nossa união será uma grande desgraça?

A prima não respondeu; levantou-se de golpe, e foi de{22} corrida ao encontro das senhoras que traziam abadas de rosas para espalharem sobre a noiva e Gonçalo que recebeu friamente a graça.

Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel colloquio dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a submissão, fugindo ao abysmo, que para elles nem sequer já se escondia debaixo de flores. Ambos o estavam vendo em toda a sua profundeza. Nenhum d'elles fiava de sua indole a resignação precisa para não blasphemar contra Deus ao despedaçarem-se na queda. Nenhum acceitava a corôa do martyrio como necessaria. Maria se recusasse formalmente, seria castigada com o convento. Quem não ha-de chamar paraizo terreal a um convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em união indissoluvel? Gonçalo, desobedecendo a seu pae, que punição podia temer? Dissabores domesticos, privações de recursos, a venda de seus cavallos, um guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibição de ir a Lisboa, reclusão em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em confronto da liberdade de gastar á larga, e chamar seu ao ouro que se atira por entre as grades de um captiveiro? Que tem que a peçonha seja bebida por vaso de relevante preço? E a peçonha das uniões odiosas e odientas, tragada gotta a gotta, ha ahi morrer de mais lentas e espantosas dores, quando as victimas se não buscam refrigerio na desvergonha e no crime?

A estas perguntas a razão do homem oscilla, e cae{23} em abusões injudiciosas. Então me lembra o destino, a fatalidade e as estrellas funestas. Mas é tão avesso á minha razão dar de barato ao nada a explicação dos mysterios da vida humana, que antes quero acreditar que alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem á infelicidade propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio, rebordam o ponto negro, que lá está, das cores variegadas e formosas que a imaginação nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a idéa da desgraça formamo'-la imperfeitamente. Tantos são os vagos bens que anhelamos, a tantas miragens do deserto nos fogem os olhos namorados, que nunca o absoluto infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua, nos parecem possiveis, nem experimentadas pelos mais famosos infelizes. Os romances dão-nos espectáculos de maxima desventura; as tragedias ensanguentam a pagina onde vertemos lagrimas; a voz publica relata supplicios da vida particular denunciados pelo gemido ou pelo escandalo. Que vale isso para imaginações juvenis? Ninguem se crê talhado para o molde das miserias excepcionaes. Além de que, tal homem que a sociedade considera desgraçado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo, e sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa que tem fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e rejubila, e captiva os olhares, que principiam piedosos e acabam por se desviarem descrentes de um martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de uma crueza que tinge de amavel brandura o semblante do algoz.{24}

E assim é que a penetração de ler em almas, e ver no sorriso as lagrimas, e no gesto meigo o arremesso do tigre, só póde da'-la muita experiencia de dores proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e na industria com que as escondeu de alheios reparos. Isto não o faz a mocidade, não o podia fazer Gonçalo Malafaya, nem D. Maria das Dôres. No instante em que um ao outro tacitamente se disseram ou podiam dizer: «ahi estão os pulsos para as algemas; mas o coração é livre»—n'esse momento o anjo da desgraça matizou-lhe de flores a garganta do despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo cada um á sua imaginação o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar com ellas as dos deveres.{25}

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