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Machado de Assis

Poesias Completas


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412494

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Texto

ADVERTÊNCIA

Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior è que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos ires publicados, Chrysalidas, Phalonas, Americanas. Chamo ao ultimo Occidentaes.

Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli com saudades. Supprimo da primeira série algumas paginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Supprimo tambem o prefacio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diarias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes; menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flôr da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou.

Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu difunto amigo a tal extremo lhe cegára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.

Rio, 22 de Julho do 1900.

MACHADO DE ASSIS.

CHRYSALIDAS
1864
MUSA CONSOLATRIX

Que a mão do tempo e o halito dos homens

Murchem a flôr das illusões da vida,

Musa consoladora,

E no teu seio amigo e socegado

Que o poeta respira o suave somno.


Não ha, não ha comtigo.

Nem dor aguda, nem sombrios ermos;

Da tua voz os namorados cantos

Enchem, povoam tudo

De intima paz, de vida e de conforto.


Ante esta voz que as dores adormece,

E muda o agudo espinho em flôr cheirosa,

Que vales tu, desillusão dos homens?

Tu que pódes, ó tempo.

A alma triste do poeta sobrenada

Á enchente das angustias,

E, affrontando o rugido da tormenta,

Passa cantando, alcyone divina.


Musa consoladora,

Quando da minha fronte de mancebo

A ultima illusão cair, bem como

Folha amarella e secca

Que ao chão atira a viração do outono,

Ah! no teu seio amigo

Acolhe-me,—e haverá minha alma afflicta,

Em vez de algumas illusões que teve,

A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!

VISIO

Eras pallida. E os cabellos,

Aereos, soltos novellos,

Sobre as espaduas as cahiam...

Os olhos meio-cerrados

De volupia e de ternura

Entre lagrimas luziam...

E os braços entrelaçados,

Como cingindo a ventura,

Ao teu seio me cingiam...


Depois, naquelle delirio,

Suave, doce martyrio

De pouquissimos instantes,

Os teus labios sequiosos,

Frios, tremulos, trocavam

Os beijos mais delirantes,

E no supremo dos gozos

Ante os anjos se casavam

Nossas almas palpitantes...


Depois... depois a verdade,

A fria realidade,

A solidão, a tristeza;

Daquelle sonho desperto,

Olhei... silencio de morte

Respirava a natureza—

Era a terra, era o deserto,

Fôra-se o doce transporte,

Restava a fria certeza.


Desfizera-se a mentira:

Tudo aos meus olhos fugira:

Tu e o teu olhar ardente,

Labios tremulos e frios,

O abraço longo e apertado,

O beijo doce e vehemente;

Restavam meus desvarios,

E o incessante cuidado,

E a phantasia doente.


E agora te vejo. E fria

Tão outra estás da que eu via

Naquelle sonho encantado!

És outra, calma, discreta,

Com o olhar indifferente,

Tão outro do olhar sonhado,

Que a minha alma de poeta

Não vê se a imagem presente

Foi a visão do passado.


Foi, sim, mas visão apenas;

Daquellas visões amenas

Que á mente dos infelizes

Descem vivas e animadas,

Cheias de luz e esperança

E de celestes matizes;

Mas, apenas dissipadas,

Fica uma leve lembrança,

Não ficam outras raizes.


Inda assim, embora sonho,

Mas, sonho doce e risonho,

Désse-me Deus que fingida

Tivesse aquella ventura

Noite por noite, hora a hora,

No que me resta de vida,

Que, já livre da amargura,

Alma, que em dores me chora.

Chorára de agradecida!

QUINZE ANNOS

Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée,

Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança...

—Pobre criança, se o eras!—

Entre as quinze primaveras

De sua vida cançada

Nem uma flôr de esperança

Abria a medo. Eram rosas

Que a douda da esperdiçada

Tão festivas, tão formosas,

Desfolhava pelo chão.

—Pobre criança, se o eras!—

Os carinhos mal gozados

Eram por todos comprados,

Que os affectos de sua alma

Havia-os levado á feira,

Onde vendera sem pena

Até a illusão primeira

Do seu doudo coração!


Pouco antes, a candura,

Co'as brancas azas abertas,

Em um berço de ventura

A criança acalentava

Na santa paz do Senhor;

Para accordal-a era cedo,

E a pobre ainda dormia

Naquelle mudo segredo

Que só abre o seio um dia

Para dar entrada a amor.


Mas, por teu mal, acordaste!

Junto do berço passou-te

A festiva melodia

Da seducção... e acordou-te!

Colhendo as limpidas azas,

O anjo que te velava

Nas mãos tremulas e frias

Fechou o rosto... chorava!


Tu, na sede dos amores,

Colheste todas as flôres

Que nas orlas do caminho

Foste encontrando ao passar;

Por ellas, um só espinho

Não te feriu... vás andando...

Corre, criança, até quando

Fores forçada a parar!


Então, desflorada a alma

De tanta illusão, perdida

Aquella primeira calma

Do teu somno de pureza;

Esfolhadas, uma a uma,

Essas rosas de belleza

Que se esvaem como a escuma

Que a vaga cospe na praia

E que por si se desfaz;


Então, quando nos teus olhos

Uma lagrima buscares,

E seccos, seccos de febre,

Uma só não encontrares

Das que em meio das angustias

São um consolo e uma paz;


Então, quando o frio spectro

Do abandono e da penuria

Vier aos teus soffrimentos

Juntar a ultima injuria:

E que não vires ao lado

Um rosto, um olhar amigo

Daquelles que são agora

Os desvellados comtigo;


Criança, verás o engano

E o erro dos sonhos teus;

E dirás,—então já tarde,—

Que por taes gozos não vale

Deixar os braços de Deus.

STELLA

Já raro e mais escasso

A noite arrasta o manto,

E verte o ultimo pranto

Por todo o vasto espaço.


Tibio clarão já córa

A téla do horizonte,

E já de sobre o monte

Vem debruçar-se a aurora.


Á muda e torva irmã,

Dormida de cansaço,

Lá vem tomar o espaço

A virgem da manhã.


Uma por uma, vão

As pallidas estrellas,

E vão, e vão com ellas

Teus sonhos, coração.


Mas tu, que o devaneio

Inspiras do poeta,

Não vês que a vaga inquieta

Abre-te o humido seio?


Vai. Radioso e ardente,

Em breve o astro do dia,

Rompendo a nevoa fria,

Virá do roxo oriente.


Dos intimos sonhares

Que a noite protegera,

De tanto que eu vertera,

Em lagrimas a pares,


Do amor silencioso,

Mystico, doce, puro,

Dos sonhos de futuro,

Da paz, do ethereo gozo,


De tudo nos desperta

Luz de importuno dia;

Do amor que tanto a enchia

Minha alma está deserta.


A virgem da manhã

Já todo o céu domina....

Espero-te, divina,

Espero-te, amanhã.

...
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