Machado de Assis
Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066412364
Em Lixboa, sobre lo mar,
Barcas novas mandey lavrar...
Cantiga de Joham Zorro.
Para veer meu amigo
Que talhou preyto comigo,
Alá vou, madre.
Para veer meu amado
Que mig'a preyto talhado,
Alá vou, madre.
Cantiga d'el-rei Dom Denis.
9 de Janeiro.
Ora bem, faz hoje um anno que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: «Vae vassouras! vae espanadores!» Costumo ouvil-o outras manhãs, mas desta vez trouxe-me á memoria o dia do desembarque, quando cheguei apozentado á minha terra, ao meu Cattete, á minha lingua. Era o mesmo que ouvi ha um anno, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.
Durante os meus trinta e tantos annos de diplomacia algumas vezes vim ao Brazil, com licença. O mais do tempo vivi fóra, em varias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram cousas e pessoas de longe, diversões, paizagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Cinco horas da tarde.
Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vae colado:
9 de Janeiro.
«Mano,
«Só agora me lembrou que faz hoje um anno que você voltou da Europa apozentado. Já é tarde para ir ao cemiterio de S. João Baptista, em visita ao jazigo da familia, dar graças pelo seu regresso; irei amanhã de manhã, e peço a você que me espere para ir commigo. Saudades da
«Velha mana,
«Rita.»
Não vejo necessidade disso, mas respondi que sim.
10 de Janeiro.
Fomos ao cemiterio. Rita, apezar da alegria do motivo, não pôde reter algumas velhas lagrimas de saudade pelo marido que lá está no jazigo, com meu pae e minha mãe. Ella ainda agora o ama, como no dia em que o perdeu, lá se vão tantos annos. No caixão do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos, então pretos, emquanto os mais delles ficaram a embranquecer cá fóra.
Não é feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples,—a inscrição e uma cruz,—mas o que está é bem feito. Achei-o novo de mais, isso sim. Rita fal-o lavar todos os mezes, e isto impede que envelheça. Ora, eu creio que um velho tumulo dá melhor impressão do oficio, se tem as negruras do tempo, que tudo consome. O contrario parece sempre da vespera.
Rita orou deante delle alguns minutos, emquanto eu circulava os olhos pelas sepulturas proximas. Em quasi todas havia a mesma antiga suplica da nossa: «Orai por elle! Orai por ella!» Rita me disse depois, em caminho, que é seu costume atender ao pedido das outras, rezando uma prece por todos que alli estão. Talvez seja a unica. A mana é boa creatura, não menos que alegre.
A impressão que me dava o total do cemiterio é a que me deram sempre outros; tudo alli estava parado. Os gestos das figuras, anjos e outras, eram diversos, mas immoveis. Só alguns passaros davam sinal de vida, buscando-se entre si e pousando nas ramagens, pipilando ou gorgeando. Os arbustos viviam calados, na verdura e nas flores.
Já perto do portão, á saída, falei a mana Rita de uma senhora que eu vira ao pé de outra sepultura, ao lado esquerdo do cruzeiro, em quanto ella rezava. Era moça, vestia de preto, e parecia rezar tambem, com as mãos cruzadas e pendentes. A cara não me era extranha, sem atinar quem fosse. E bonita, e gentilissima, como ouvi dizer de outras em Roma.
—Onde está?
Disse-lhe onde estava. Quiz ver quem era. Rita, alem de boa pessoa, é curiosa, sem todavia chegar ao superlativo romano. Respondi-lhe que esperassemos alli mesmo, ao portão.
—Não! pode não vir tão cedo, vamos espial-a de longe. É assim bonita?
—Pareceu-me.
Entrámos e enfiámos por um caminho entre campas, naturalmente. A alguma distancia, Rita deteve-se.
—Você conhece, sim. Já a viu lá em casa, ha dias.
—Quem é?
—É a viuva Noronha. Vamos embora, antes que nos veja.
Já agora me lembrava, ainda que vagamente, de uma senhora que lá apareceu em Andarahy, a quem Rita me aprezentou e com quem falei alguns minutos.
—Viuva de um medico, não é?
—Isso; filha de um fazendeiro da Parahyba do Sul, o barão de Santa-Pia.
Nesse momento, a viuva descruzava as mãos, e fazia gesto de ir embora. Primeiramente espraiou os olhos, como a ver se estava só. Talvez quizesse beijar a sepultura, o proprio nome do marido, mas havia gente perto, sem contar dous coveiros que levavam um regador e uma enxada, e iam falando de um enterro daquella manhã. Falavam alto, e um escarnecia do outro, em voz grossa: «Eras capaz de levar um daquelles ao morro? Só se fossem quatro como tu.» Tratavam de caixão pezado, naturalmente, mas eu voltei depressa a atenção para a viuva, que se afastava e caminhava lentamente, sem mais olhar para traz. Encoberto por um mausoleu, não a pude ver mais nem melhor que a principio. Ella foi descendo até o portão, onde passava um bonde em que entrou e partiu. Nós descemos depois e viemos no outro.
Rita contou-me então alguma cousa da vida da moça e da felicidade grande que tivera com o marido, alli sepultado ha mais de dous annos. Pouco tempo viveram juntos. Eu, não sei por que inspiração maligna, arrisquei esta reflexão:
—Não quer dizer que não venha a cazar outra vez.
—Aquella não caza.
—Quem lhe diz que não?
—Não caza; basta saber as circumstancias do cazamento, a vida que tiveram e a dor que ella sentiu quando enviuvou.
—Não quer dizer nada, pode cazar; para cazar basta estar viuva.
—Mas eu não cazei.
—Você é outra cousa, você é unica.
Rita sorriu, deitando-me uns olhos de censura, e abanando a cabeça, como se me chamasse «peralta». Logo ficou seria, porque a lembrança do marido fazia-a realmente triste. Meti o caso á bulha; ella, depois de aceitar uma ordem de ideias mais alegre, convidou-me a ver se a viuva Noronha cazava commigo; apostava que não.
—Com os meus sessenta e dous annos?
—Oh! não os parece: tem a verdura dos trinta.
Pouco depois chegámos a casa e Rita almoçou commigo. Antes do almoço, tornámos a falar da viuva e do cazamento, e ella repetiu a aposta. Eu, lembrando-me de Goethe, disse-lhe:
—Mana, você está a querer fazer commigo a aposta de Deus e de Mephistopheles; não conhece?
—Não conheço.
Fui á minha pequena estante e tirei o volume do Fausto, abri a pagina do prologo no ceu, e li-lh'a, resumindo como pude. Rita escutou atenta o desafio de Deus e do Diabo, a proposito do velho Fausto, o servo do Senhor, e da perda infalivel que faria delle o astuto. Rita não tem cultura, mas tem finura, e naquella ocasião tinha principalmente fome. Replicou rindo:
—Vamos almoçar. Não quero saber desses prologos nem de outros; repito o que disse, e veja você se refaz o que lá vae desfeito. Vamos almoçar.
Fomos almoçar; ás duas, horas Rita voltou para Andarahy, eu vim escrever isto e vou dar um giro pela cidade.
12 de Janeiro.
Na conversa de ante-hontem com Rita esqueceu-me dizer a parte relativa a minha mulher, que lá está enterrada em Vienna. Pela segunda vez falou-me em transportal-a para o nosso jazigo. Novamente lhe disse que estimaria muito estar perto della, mas que, em minha opinião, os mortos ficam bem onde caem; redarguiu-me que estão muito melhor com os seus.
—Quando eu morrer, irei para onde ella estiver, no outro mundo, e ella virá ao meu encontro, disse eu.
Sorriu, e citou o exemplo da viuva Noronha que fez transportar o marido de Lisboa, onde faleceu, para o Rio de Janeiro, onde ella conta acabar. Não disse mais sobre este assunto, mas provavalmente tornará a elle, até alcançar o que lhe parece. Já meu cunhado dizia que era seu costume della, quando queria alguma cousa.
Outra cousa que não escrevi foi a alusão que ella fez á gente Aguiar, um cazal que conheci a ultima vez que vim, com licença, ao Rio de Janeiro, e agora encontrei. São amigos della e da viuva, e celebram daqui a dez ou quinze dias as suas bodas de prata. Já os visitei duas vezes e o marido a mim. Rita falou-me delles com simpatia e aconselhou-me a ir comprimental-os por ocasião das festas anniversarias.
—Lá encontrará Fidelia.
—Que Fidelia?
—A viuva Noronha.
—Chama-se Fidelia?
—Chama-se.
—O nome não basta para não cazar.
—Tanto melhor para você, que vencerá a pessoa e o nome, e acabará cazando com a viuva. Mas eu repito que não caza.
14 de Janeiro.
A unica particularidade da biografia de Fidelia é que o pae e o sogro eram inimigos politicos, chefes de partido na Parahyba do Sul. Inimizade de familias não tem impedido que moços se amem, mas é preciso ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as familias de Romeo e de Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; tambem dizem que nunca existiram, salvo na tradição ou somente na cabeça de Shakespeare.
Nos nossos municipios, ao norte, ao sul e ao centro, creio que não ha caso algum. Aqui a oposição dos rebentos continua a das raizes, e cada arvore brota de si mesma, sem lançar galhos a outra, e esterilisando-lhe o terreno, se pode. Eu, se fosse capaz de odio, era assim que odiava; mas eu não odeio nada nem ninguem,—perdono a tutti, como na opera.
Agora, como foi que elles se amaram,—os namorados da Parayba do Sul,—é o que Rita me não referiu, e seria curioso saber. Romeo e Julieta aqui no Rio, entre a lavoura e a advocacia,—porque o pae do nosso Romeo era advogado na cidade da Parahyba,—é um desses encontros que importaria conhecer para explicar. Rita não entrou nesses pormenores; eu, se me lembrar, heide pedir-lh'os. Talvez ella os recuse imaginando que começo deveras a morrer pela dama.
16 de Janeiro.
Tão depressa vinha saindo do Banco do Sul encontrei Aguiar, gerente delle, que para lá ia. Comprimentou-me muito afetuosamente, pediu-me noticias de Rita, e falámos durante alguns minutos sobre cousas geraes.
Isto foi hontem. Hoje de manhã recebi um bilhete de Aguiar, convidando-me, em nome da mulher e delle, a ir lá jantar no dia 24. São as bodas de prata. «Jantar simples e de poucos amigos» escreveu elle. Soube depois que é festa recolhida. Rita vae tambem. Resolvi aceitar, e vou.
20 de Janeiro.
Tres dias metido em casa, por um resfriamento com pontinha de febre. Hoje estou bom, e segundo o medico, posso ja sair amanhã; mas poderei ir ás bodas de prata dos velhos Aguiares? Profissional cauteloso, o Dr. Silva me aconselhou que não vá; mana Rita que tratou de mim dous dias, é da mesma opinião. Eu não a tenho contraria, mas se me achar lepido e robusto, como é possivel, custar-me-ha não ir. Veremos; tres dias passam depressa.
Seis horas da tarde.
Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente alguma cousa de Shelley e tambem de Thackeray. Um consolou-me de outro, este desenganou-me d'aquelle; é assim que o engenho completa o engenho, e o espirito aprende as linguas do espirito.
Nove horas da noite.
Rita jantou commigo; disse-lhe que estou são como um pero, e com forças para ir ás bodas de prata. Ella, depois de me aconselhar prudencia, concordou que, se não tiver mais nada, e fôr comedido ao jantar, posso ir; tanto mais que os meus olhos terão lá dieta absoluta.
—Creio que Fidelia não vae, explicou.
—Não vae?
—Estive hoje com o desembargador Campos, que me disse haver deixado a sobrinha com a nevralgia do costume. Padece de nevralgias. Quando ellas lhe aparecem é por dias, e não vão sem muito remedio e muita paciencia. Talvez vá visital-a amanhã ou depois.
Rita acrescentou que para o casal Aguiar é meio desastre; contavam com ella, como um dos encantos da festa. Querem-se muito, elles a ella, e ella a elles, e todos se merecem, é o parecer de Rita e pode vir a ser o meu.
—Creio. Já agora, se me não sentir impedido, irei sempre. Tambem a mim parece boa gente a gente Aguiar. Nunca tiveram filhos?
—Nunca. São muito afetuosos, D. Carmo ainda mais que o marido. Você não imagina como são amigos um do outro. Eu não os frequento muito, porque vivo metida commigo, mas o pouco que os visito basta para saber o que valem, ella principalmente. O desembargador Campos, que os conhece desde muitos annos, pode dizer-lhe o que elles são.
—Haverá muita gente ao jantar?
—Não, creio que pouca. A maior parte dos amigos irá de noite. Elles são modestos, o jantar é só dos mais intimos, e por isso o convite que fizeram a você mostra grande simpatia pessoal.
—Já senti isso, quando me apresentaram a elles, ha sete annos, mas então supuz que era mais por causa do ministro que do homem. Agora, quando me receberam, foi com muito gosto. Pois lá vou no dia 24, haja ou não haja Fidelia.
25 de Janeiro.
Lá fui hontem ás bodas de prata. Vejamos se posso resumir agora as minhas impressões da noite.
Não podiam ser melhores. A primeira dellas foi a união do casal. Sei que não é seguro julgar por uma festa de algumas horas a situação moral de duas pessoas. Naturalmente a ocasião aviva a memoria dos tempos passados, e a affeição dos outros como que ajuda a duplicar a propria. Mas não é isso. Ha nelles alguma cousa superior á oportunidade e diversa da alegria alheia. Senti que os annos tinham ali reforçado e apurado a natureza, e que as duas pessoas eram, ao cabo, uma só e unica. Não senti, não podia sentir isto logo que entrei, mas foi o total da noite.
Aguiar veiu receber-me á porta da sala,—eu diria que com uma intenção de abraço, se pudesse havel-a entre nós e em tal logar; mas a mão fez esse oficio, apertando a minha efusivamente. É homem de sessenta annos feitos (ella tem cincoenta), corpo antes cheio que magro, agil, ameno e risonho. Levou-me á mulher, a um lado da sala, onde ella conversava com duas amigas. Não era nova para mim a graça da boa velha, mas desta vez o motivo da visita e o teor do meu comprimento davam-lhe á expressão do rosto algo que tolera bem a qualificação de radiante. Estendeu-me a mão, ouviu-me e inclinou a cabeça, olhando de relance para o marido.
Senti-me objeto dos cuidados de ambos. Rita chegou pouco depois de mim; vieram vindo outros homens e senhoras, todos de mim conhecidos, e vi que eram familiares da casa. Em meio da conversação, ouvi esta palavra inesperada a uma senhora, que dizia a outra:
—Não vá Fidelia ter ficado peor.
—Ella vem? perguntou a outra.
—Mandou dizer que vinha; está melhor; mas talvez lhe faça mal.
O mais que as duas disseram, relativamente á viuva, foi bem. O que me dizia um dos convidados apenas foi ouvido por mim, sem lhe prestar atenção maior que o assunto nem perder as aparencias della. Pela hora proxima do jantar supuz que Fidelia não viesse. Supuz errado. Fidelia e o tio foram os ultimos chegados, mas chegaram. O alvoroço com que D. Carmo a recebeu mostrava bem a alegria de a ver ali, apenas convalecida, e apezar do risco de voltar á noite. O prazer de ambas foi grande.
Fidelia não deixou inteiramente o luto; trazia ás orelhas dous coraes, e o medalhão com o retrato do marido, ao peito, era de ouro. O mais do vestido e adorno escuro. As joias e um raminho de myosotis á cinta vinham talvez em homenagem á amiga. Já de manhã lhe enviara um bilhete de comprimentos acompanhando o pequeno vaso de porcelana, que estava em cima de um movel com outros presentinhos anniversarios.
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