Editado por Harlequin Ibérica.
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© 2018 Lynne Graham
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
A herdeira e o amor, n.º 1851 - março 2021
Título original: The Italian’s Inherited Mistress
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1375-478-9
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
– Isso é impossível. Não acredito! – Alissandru Rossetti saltou da sua cadeira a meio da leitura do testamento do seu irmão, cheio de incredulidade ultrajada. – Porque é que o Paulu haveria de deixar alguma coisa a essa ordinária? – perguntou, a ninguém em particular.
Por sorte, os únicos presentes eram a mãe, Constantia, e o advogado da família, Marco Morelli, pois todas as tentativas de contactar a beneficiária principal do testamento tinham sido infrutíferas. Perturbado com aquela palavra reveladora, «principal», Alissandru limitara-se a franzir o sobrolho, pensando que era muito próprio do seu falecido irmão Paulu ter deixado os seus bens terrestres a alguma ONG. Afinal de contas, a sua esposa Tania e ele tinham morrido juntos e não tinham filhos, e ele, Alissandru, o irmão gémeo, não precisava de herdar, pois não só era o gémeo mais velho e dono da quinta familiar da Sicília, como também multimilionário por direito próprio.
– Respira fundo, Alissandru – pediu Constantia, que conhecia bem o temperamento fogoso do filho. – O Paulu tinha o direito de deixar os seus bens a quem quisesse e não sabemos se a irmã da Tania merece ser tratada de forma tão desagradável.
Alissandru passeava pelo escritório pequeno, um comportamento que era, claramente, de intimidação num espaço confinado, visto que media mais de um metro e noventa de estatura e, vestido com um dos fatos pretos e elegantes que gostava de usar, tinha uma figura forte e poderosa. Aquela cor funerária fizera-o ganhar a alcunha de «O Corvo» na City de Londres, onde os seus instintos agressivos nos negócios eram famosos, como correspondia a um empresário que se destacava no campo da nova tecnologia. Passeando pelo escritório, fazia o advogado pensar num tigre fechado numa jaula.
«Não sabemos se merece ser tratada de forma tão desagradável?», pensou, ultrajado, recordando Isla Stewart, a adolescente ruiva que conhecera no casamento do irmão há seis anos. Com apenas dezasseis anos, vestia uma roupa sexualmente provocadora e exibia as suas curvas jovens e as suas pernas bem torneadas numa oferta claramente sexual ao melhor licitador. E, nesse mesmo dia, mais tarde, vira-a a sair de um dos quartos com a roupa amarrotada, só um instante antes de um dos primos dele sair do mesmo quarto, abotoando os punhos da camisa e ajeitando o cabelo. Obviamente, Isla era tal como a irmã Tania, uma mulher descarada, lasciva e desonesta.
– Não sabia que o Paulu mantinha o contacto com a irmã da Tania – admitiu, cortante. – Sem dúvida, enganou-o tão facilmente como a irmã e encontrou um lugar no seu coração mole.
Falava com uma dor muito real, porque amara muito o irmão e ainda, seis semanas depois do acidente de helicóptero que arrebatara a vida a Paulu e a Tania, lhe custava acreditar que nunca mais voltaria a falar com ele. Pior ainda, não conseguia esquecer a culpa de saber que não conseguira proteger o irmão da bruxa intriguista que era Tania Stewart. Infelizmente, os últimos anos de Paulu tinham sido muito infelizes, mas recusara-se a divorciar-se da modelo vil de roupa interior com quem se casara com tanta pressa, achando que estava grávida, só que, «surpresa, surpresa», pensou Alissandru, com cinismo, fora um falso alarme.
Tania continuara a destruir a vida do irmão com o seu esbanjamento constante, as suas birras ardilosas e, finalmente, com a sua infidelidade. No entanto, durante todos esses excessos, Paulu continuara a adorá-la como se fosse uma deusa. Porque, infelizmente para ele, o irmão fora uma alma gentil, uma pessoa carinhosa, leal e comprometida. Muito diferente de Alissandru em todos os sentidos, como a noite e o dia. E, no entanto, Alissandru valorizara muito aquelas diferenças e confiara em Paulu como nunca confiara em nenhuma outra pessoa. E embora o enfurecesse pensar que outra mulher Stewart conseguira enganar e manipular o irmão e fazê-lo deixar um testamento assim, também havia uma parte dele que se sentia traída por Paulu.
Afinal de contas, ele sabia o que a quinta familiar significava para Alissandru e, no entanto, deixara a casa dentro dessa quinta e todo o seu dinheiro à irmã de Tania. Um presente grande para a rapariga e uma bofetada para Alissandru, embora soubesse que Paulu teria cortado a mão antes de o magoar. E, em honra da verdade, nunca teria imaginado que um acidente trágico podia acabar ao mesmo tempo com a sua vida e com a da sua esposa e, assim, limpar o caminho para que a cunhada herdasse o que nunca devia ter sido dela.
– O Paulu visitou a Isla várias vezes em Londres durante a etapa em que… – Constantia hesitou, escolhendo as palavras com tato. – Em que a Tania e ele estiveram separados. Gostava dessa rapariga.
– Nunca me disse isso! – exclamou Alissandru, com os olhos brilhantes e muita tensão nos seus traços morenos. Não queria imaginar que outra mulher Stewart conseguira impressionar o irmão com um encanto sedutor com que só tencionava procurar benefícios. Paulu sempre fora muito fraco com as histórias lacrimogéneas.
Alissandru nunca fora tão tolo. Gostava de mulheres, mas elas amavam-no e perseguiam-no como uma raça rara porque era rico e solteiro. Quando era mais jovem, ouvira muitas histórias lacrimogéneas e, algumas vezes, levado pela inexperiência, caíra na armadilha, mas já há anos que não era tão ingénuo ou imprudente. Escolhia as suas amantes entre mulheres do seu estrato social. As mulheres com dinheiro próprio ou carreiras muito exigentes eram a melhor aposta para o tipo de aventuras passageiras em que se especializou. Compreendiam que não estava pronto para criar raízes e praticavam a mesma discrição que ele.
– Sabendo o que pensavas da Tania, não é de estranhar que o Paulu não te dissesse – comentou a mãe, com gentileza. – O que vais fazer?
– Comprar a casa do Paulu. Que outra coisa posso fazer? – perguntou Alissandru.
Encolheu os ombros com raiva devido à perspetiva de ter de enriquecer outra mulher Stewart. Quantas vezes pagara as dívidas de Tania para proteger o irmão das exigências insaciáveis da esposa? Mas que outra coisa podia fazer? Tania estava morta e enterrada e a irmã nem sequer se incomodara em ir ao funeral. Todas as tentativas de a contactar na sua última morada conhecida tinham sido infrutíferas. Isso já dizia tudo sobre o vínculo fraco que havia entre as irmãs, não era?
– Temos de encontrar a maninha da Tania – disse, num tom leve de ameaça.
Isla soprou para os dedos congelados. O vento arrefecia-lhe o rosto por baixo do gorro enquanto dava rapidamente de comer às galinhas e apanhava os ovos. Pensou, corajosa, que teria de fazer confeitaria para os gastar e, depois, sentiu-se culpada por pensar assim quando a única irmã e o cunhado estavam mortos.
E, pior ainda, ela não teria sabido o que acontecera se não fosse porque um vizinho amável fora à casa na semana anterior para lhe dar a trágica notícia pessoalmente. Os tios, os donos da quinta nas Terras Altas da Escócia em que Isla estava, tinham ido visitar a família da tia na Nova Zelândia, tinham lido na Internet a notícia das mortes de Tania e Paulu num acidente de helicóptero e tinham ligado imediatamente para os vizinhos para que perguntassem a Isla se queria que voltassem para casa para que ela pudesse viajar para Itália.
Porém, que sentido teria essa viagem se já perdera os funerais? Era muito triste nunca ter chegado a conhecer a própria irmã. Tinham sido criadas separadas e Tania era dez anos mais velha. Isla fora a filha não planeada e não muito bem-vinda, uma chegada tardia depois da morte prematura do pai. A mãe, Morag, que fazia o que podia para sobreviver, fora para Londres com Tania para procurar trabalho e deixara Isla ao cuidado da avó até que pudesse reunir-se com elas.
Infelizmente, essa reunião nunca acontecera. Isla crescera na mesma quinta das Terras Altas onde a mãe fora criada com os avós e estes tinham sido os seus verdadeiros pais para todos os efeitos. Morag ia lá de vez em quando no Natal e Isla tinha lembranças vagas de uma mulher de rosto suave e cabelo avermelhado encaracolado, como o dela, e de uma irmã loira muito mais alta que, já em adolescente, se transformara numa beleza clássica. Tania saíra de casa muito cedo para ser modelo e a mãe de Isla morrera não muito depois de uma doença renal de que padecia há muito tempo. De facto, a primeira vez que Isla comunicara diretamente com a irmã fora quando ligara para a quinta para a convidar para o seu casamento na Sicília.
A rapariga odiara que não convidasse também os seus avós, mas os idosos tinham insistido que fosse porque Tania se oferecia generosamente para lhe pagar a viagem. Como eram pessoas justas, também a tinham feito ver que Tania nunca tivera a oportunidade de conhecer nenhum deles e que, embora fossem parentes de sangue, na verdade, eram quase estranhos.
Isla ainda sentia vergonha ao recordar como se sentira deslocada naquele casamento luxuoso e cheio de convidados importantes e ricos e na experiência desagradável que tivera ao ver-se perseguida por um predador. Contudo, o pior de tudo fora que a ligação desejada com a única irmã não acontecera. Na verdade, a atitude que Tania tinha na vida escandalizara-a.
– Não, podes agradecer o convite ao Paulu – declarara Tania. – Disse que tinha de haver algum membro da minha família presente e pensei que uma adolescente era muito melhor do que os velhos aborrecidos da quinta de quem a mãe falava. Este casamento significa uma promoção social para mim e não quero que parentes pobres com sotaque escocês do campo diminuam o meu estatuto à frente dos nossos convidados.
Isla tentara não a julgar e decidira que a irmã se mostrava tão franca porque tivera uma educação liberal e muito menos antiquada do que a dela.
– Essa rapariga era desenfreada – dissera a avó, uma vez. – A tua mãe não conseguia controlá-la nem nunca era capaz de lhe dar tudo o que queria.
– Mas o que é que a Tania queria? – perguntara Isla, dececionada porque, depois do casamento, não houvera nenhuma menção de as irmãs voltarem a encontrar-se.
– O único sonho que teve foi ser rica e famosa. – A avó rira-se. – E, a julgar pelo casamento que descreveste, parece que essa carinha bonita lhe conseguiu o que queria.
No entanto, aquilo não era verdade. Isla recordou o seu encontro seguinte com a irmã vários anos depois, quando ela também se mudara para Londres. Os avós tinham morrido com poucas semanas de diferença e o tio encarregara-se da quinta. Pedira-lhe que ficasse com eles, mas, depois de ter passado meses a ajudar a avó a cuidar do avô doente e ainda muito triste com a perda de ambos, Isla considerara que tinha de sair da sua zona de conforto na quinta e procurar independência.
– O Paulu enganou-me – insistira Tania, com desdém, depois de anunciar que abandonara o marido e o lar conjugal. – Não pode dar-me o que prometeu. Não tem dinheiro suficiente.
E, pouco depois disso, Paulu fora visitar Isla no seu quarto humilde para lhe pedir conselho sobre a irmã irascível. Parecera-lhe um homem encantador, muito apaixonado por Tania e desesperado por fazer o que fosse preciso para a recuperar. Os olhos encheram-se de lágrimas ao pensar que, pelo menos, Paulu conseguira voltar para o amor da sua vida antes da morte de ambos. Recuperara essa felicidade antes de o destino ceifar brutalmente as suas vidas antes de tempo. Gostava de Paulu. De facto, começara a conhecê-lo muito melhor do que conhecia a própria irmã.
Seguira o seu conselho sobre como recuperar o interesse de Tania? Nunca saberia.
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