Editado por Harlequin Ibérica.
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O príncipe cruel, n.º 1838 - outubro 2020
Título original: The Prince’s Scandalous Wedding Vow
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1348-985-8
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
O príncipe Alexander Julius Alberici sabia que tinha chegado o momento de mudar. A 27 de junho ia casar-se com a princesa Danielle e teria de voltar para Aargau, o seu reino numa ilha do Mediterrâneo, para os festejos antes do casamento. Depois da cerimónia e da lua de mel, que se prolongaria por duas semanas, poderia voltar para Paris com a sua esposa para continuar a supervisionar um grupo ecologista que se dedicava a melhorar a sustentabilidade de ecossistemas frágeis.
O trabalho era a sua paixão e Danielle tinha-lhe dado o seu apoio, um ponto a seu favor neste que, afinal, era um casamento arranjado. Também tinha aceitado viver onde quer que ele quisesse, com a certeza de que acabariam a viver em Aargau quando Alexander tivesse de ocupar o cargo do seu pai e subir ao trono, algo que parecia estar muito longínquo porque o pai era um homem atlético e vigoroso. Bom, costumava sê-lo, até que aquela constipação de inverno se prolongou até à primavera e depois, em meados de abril, foi diagnosticado um cancro de pulmão ao rei Bruno Titus Alberici. Deram-lhe apenas uns meses de vida.
Alexander nunca fora muito próximo do seu pai. O povo podia adorar o rei Bruno, mas era frio e implacável em casa, embora ela não conseguisse imaginar o mundo sem o seu implacável pai. Naquele momento, o seu pai estava decidido a encarar a morte como encarara a vida, sem sentimentalismos nem fragilidades, e nada ia mudar. O casamento, no final de junho, não seria antecipado e também não seria tornada pública a doença de Bruno, não iriam fazer nada que pudesse preocupar o povo até ser inevitável, o que, para o rei Alberici, significava o momento de comunicar a sua morte.
A sua mãe, a rainha, apoiava o plano tal como sempre apoiara o marido, fora esse o seu papel desde que se casara e tinha cumprido sempre as suas obrigações. Naquele momento, ele tinha de cumprir as suas, que eram casar e ter um herdeiro para que a monarquia se perpetuasse. Sentiu-se desassossegado, como encurralado no camarote, embora este fosse o maior do barco. Abriu a porta de correr e apoiou-se no corrimão para olhar para o mar.
Aquela viagem, organizada pelos seus amigos mais íntimos, era um erro. Não conseguia relaxar quando o seu pai estava a ficar cada dia mais fraco, ainda que os seus pais tivessem feito questão de que o fizesse para manter as aparências. Os príncipes não organizavam despedidas de solteiro e, por isso, Gerard, o seu melhor amigo, tinha organizado uma viagem de uma semana pelo mar Egeu. Ele tinha deixado os detalhes nas mãos dos seus amigos, estava muito preocupado tanto porque poderia ser a sua última aventura como pela saúde do seu pai, mas deveria ter participado, pelo menos, na decisão da lista de convidados.
O iate era impressionante e a máxima expressão do luxo, mas, ainda assim, era um barco e estavam ali presos, o que nem seria um inconveniente já que todos se davam bem, mas, inexplicavelmente, Gerard tinha permitido que Damian Anton Alberici, primo de Alexander, levasse Claudia, a sua namorada. Isso também não teria sido um contratempo se Claudia não fosse uma ex-namorada de Alexander e a rutura, há seis meses, não tivesse sido… conflituosa.
A tensão no iate levava-o a querer voltar para casa, e isso tendo em conta que a sua casa também não era um lugar especialmente agradável. A sua mãe tentava assimilar o diagnóstico fatídico do seu pai, que se tinha consumido da noite para o dia. O pessoal do palácio, que jurara guardar segredo, estava incrivelmente nervoso. No entanto, ninguém falava do que se estava a passar. Na verdade, na sua família não se falava de assuntos pessoais, não se transmitiam os sentimentos, só existia o dever e ele sabia-o.
O quanto antes se celebrasse o casamento, melhor, e a princesa Danielle Roulet seria uma boa esposa. Era encantadora, muito bem-educada e dominava vários idiomas, algo essencial para a futura rainha. Também era sofisticada e elegante, o que agradaria ao povo. Não era um casamento por amor, mas daria certo porque ambos entendiam qual era o dever deles e, além disso, o casamento seria um motivo de celebração para o seu povo, e precisava disso com urgência já que a coroa mudaria de mãos muito em breve.
Naquele momento, gostaria de sair do iate e voltar para a sua família, já que não estava a gostar nada da sua última escapadela como solteiro.
Josephine só queria que o iate se fosse embora. Havia centenas de ilhas na Grécia e eles estavam há dois dias ancorados à frente de uma baía de Khronos, a sua pequena ilha. Estava farta de música barulhenta e risos histéricos. Os borguistas até tinham desembarcado na ilha naquela manhã. Ela tinha-se escondido entre as árvores da falésia sobre a praia. As jovens eram impressionantes, bronzeadas, esbeltas e com biquínis quase inexistentes, e os homens eram belos e musculados. Continuavam ali a festa e havia muito álcool e outras coisas que a fizeram franzir o nariz. Só havia um que não bebia, não fumava nem fazia amor na praia. No entanto, todos o rodeavam, era o centro do grupo.
Observou-os com curiosidade e verdadeiro desdém. Não queria julgá-los, mas era evidente que levavam uma vida de privilegiados. O seu pai dizia que os criticava porque nunca tinha entrado naquele tipo de grupos e talvez tivesse alguma razão, mas gostava de usar o cérebro e trabalhar com o pai, um dos vulcanólogos mais importantes do mundo, razão pela qual viviam no meio do mar Egeu. Ela documentava os achados do pai e era indispensável para as suas investigações. Ele era o primeiro a reconhecer que sem ela não conseguiria fazer tanto trabalho, mas ao fim do dia, dedicava-se à sua paixão, a desenhar, a pintar… Restava-lhe pouco papel e telas, mas o seu pai voltaria dentro de dez dias e trazia-lhe sempre material novo. Esta tarde tinha ido até às rochas sobre a enseada com o seu caderno para desenhar o que mais lhe chamava a atenção naquela cena festiva, o homem que lhe parecia mais fascinante por ser diferente. Tinha o cabelo escuro e espesso, as sobrancelhas retas e os olhos claros, não sabia se azuis ou cinzentos. O queixo era quadrado, tinha as maçãs-do-rosto prominentes e a boca era carnuda, firme e séria. Os seus traços eram quase demasiado perfeitos e adoraria estar mais perto para saber a cor dos seus olhos. Embora o mais intrigante fosse a sua forma de sentar-se na cadeira, com os ombros muito direitos e o queixo levantado. Observou-o para comparar o desenho com o homem real e, efetivamente, tinha reproduzido o seu corpo musculoso e os traços, mas a sua expressão não era a acertada. Intrigava-a aquela expressão, o que a levava a observá-lo até tentar entender. Estava aborrecido ou era infeliz? Parecia não querer estar ali com aquelas pessoas. Era um mistério e ela gostava de quebra-cabeças.
Então, ele levantou-se e toda a gente recolheu as suas coisas para voltar para o iate.
Ela alegrou-se e fechou o caderno, mas também se sentiu algo dececionada quando a lancha levou o misterioso homem para o super iate que estava fundeado à entrada da baía. Ele era o homem mais interessante que já tinha visto na sua vida e tinha-se ido embora.
Nessa tarde, ao final do dia, estava a terminar as verificações rotineiras quando ouviu umas vozes, como uma discussão que chegava da enseada. Foi à praia e apurou o ouvido, mas só ouviu o murmúrio do motor do barco. Será que por fim se iam embora? Como de costume, estava iluminado e podia ver os casais que estavam deitados e bebiam na coberta superior.
O iate movia-se, podia ver o sulco nas águas, e lamentou que o seu homem misterioso se afastasse, mas ficou contente por o ruído desaparecer. Continuava a olhar quando ouviu um grito apagado e viu que uma pessoa caía pela borda. Foi na popa, onde estavam pessoas entre as sombras da coberta inferior. Correu até à orla, mas não viu ninguém na superfície da água. Aterrorizava-a que alguém pudesse estar a afogar-se e não podia ficar de braços cruzados. Despiu o vestido de alças e atirou-se às ondas para nadar até onde tinha estado ancorado o barco. Mergulhou, mas estava tudo estava muito escuro. Mergulhou com os pulmões prestes a explodirem. Estava quase a voltar à superfície quando tocou um tecido, um peito, umas costas, um homem… Rodeou-lhe o pescoço com um braço, mas ia precisar de alguma força divina porque os pulmões reclamavam ar urgentemente.
Começou a subir. Pesava-lhe o seu corpo, mas nunca tinha mergulhado com tanta determinação. Tinha crescido no mar, passara a vida a nadar, e sabia que podia fazê-lo porque não estava sozinha. Achava que o destino a tinha levado ali quando ele caiu borda fora e que estava destinada a salvá-lo… e salvou-o. Atingiu a superfície, respirou e levou-o até a praia. Arrastou-o para fora da água e pô-lo de costas sobre a areia seca para que lhe saísse a água da boca e do nariz. Depois, deitou-o de costas outra vez e deu-se conta de que era ele, o seu maravilhoso homem misterioso, o que parecia não tolerar aqueles tontos… Nunca tinha reanimado ninguém, mas o seu pai ensinara a fazê-lo e ainda se lembrava do essencial. Repetiu a operação várias vezes enquanto rezava para receber ajuda divina, não estava disposta a perdê-lo. Tinha de respirar! Então, quando começava a acreditar que os seus esforços eram inúteis, ele levantou um pouco o peito. Voltou a respirar com força na sua boca e ele exalou ar. O seu peito subiu e baixou com a respiração entrecortada, mas estava vivo. Arderam-lhe olhos com as lágrimas e, esgotada, sentou-se nos calcanhares. Salvara-o, mas que fazia com ele? Precisava de ajuda médica e não sabia como pedi-la. O rádio estava estragado. O seu pai levaria um quando voltasse, mas demoraria uns dias. Normalmente, era-lhe indiferente estar incontactável, já tinha estado antes, mas agora era diferente.
Olhou para o mar e só viu o leve resplendor do iate no horizonte. Como era possível que ninguém se tivesse dado conta de que tinha caído ao mar?
Afastou-lhe o cabelo da frente e então deu-se conta de que tinha a têmpora manchada de sangue. Tinha-se ferido antes de ter caído borda fora, ou de o terem atirado.
Ouvira uma discussão, fora isso que lhe chamara a atenção, e o murmúrio do motor. Parecia que lhe tinham batido na cabeça, mas porquê?
Pestanejou. Doía-lhe a cabeça. Tentou sentar-se, mas tudo começou a andar às voltas. Não percebia porque é que tudo parecia tão nublado, mas entreviu uma mulher com ar de preocupada e a cara em cima da dele.
Conhecia-a de algum sítio? Não conseguia pensar e fechou os olhos para se deixar levar pela inconsciência, até que a dor o acordou outra vez. Abriu os olhos e comprovou que era de dia, embora não soubesse se era cedo ou tarde.
Uma mulher movia-se pelo quarto. Tinha um vestido branco, largo e vaporoso. O cabelo, longo e liso, chegava-lhe quase até à cintura. Por um instante, perguntou-se se seria um anjo, se teria morrido e estaria no céu. Tentou erguer-se e sentiu náuseas. Deixou-se cair outra vez sobre a almofada e compreendeu que não podia estar no céu se sentia aquela dor.
O anjo com forma de mulher devia ter ouvido o seu rabujar porque voltou-se e aproximou-se. Era tão jovem e formosa que, de facto, não podia ser real. Talvez tivesse febre e estivesse a alucinar porque ela se ajoelhou ao seu lado com a luz a refletir-se no cabelo castanho claro. Era possível que o inferno estivesse cheio de belezas diabólicas assim.
Por fim estava a voltar a si.
– Olá – cumprimentou-o Josephine em inglês até que se lembrou de que as conversas que tinha ouvido na praia eram em francês e italiano. – Como estás? – perguntou-lhe em francês.
Ele pestanejou os seus olhos azuis, embora sem conseguir focar a visão.
– Como te sentes? – insistiu ela em italiano.
Ele fez uma careta de dor e também respondeu em italiano.
– Tu chei sei?
– Sou a Josephine. Feriste-te, mas já paraste de sangrar.
– Que aconteceu?
– Caíste do teu iate.
– Um iate?
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