Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
Os segredos de Saffron Hall
Título original: The Secrets of Saffron Hall
© Clare Marchant 2020
© 2022, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.
Publicado originalmente pela Avon, uma divisão da HarperCollins Publishers Limited, UK.
Tradutora: Mariana Mata
Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.
Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers Limited, UK.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.
Desenho da capa: Claire Ward © HarperCollinsPublishers Ltd 2020
Imagens da capa: © Lee Avison/Trevillion Images (fundo), Mark Owen/Trevillion Images (mulher)
1ª edição: Abril 2022
ISBN: 978-84-9139-783-0
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Para ti, mãe, que sempre acreditaste em mim.
1541
A mão tremia-lhe enquanto mergulhava a pena na tinta e escrevia as palavras, com letra quase ilegível, enquanto as lágrimas quentes se espalhavam pelo pergaminho e o ensopavam, engrossando as fibras.
Mary, em segurança nos braços de Nosso Senhor, 17 de novembro de 1541
Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa
No exterior, a mancha escura de pesadas nuvens cinzentas estava tão baixa que quase tocava nas copas das árvores nuas. O vento amargo e gelado atirava flocos afiados de neve às janelas, assobiando pelas numerosas frestas para encontrar o seu caminho para o interior e enrolar os dedos crus à volta dos seus ossos exaustos. Pouco importava. Já tinha o coração gelado, como se fosse um caroço duro e doloroso que lhe pesava no peito. Nenhuma quantidade de roupa de lã ou mantos forrados a pelo conseguiriam aquecê-la naquele momento.
Eleanor sabia que as hipóteses de sobrevivência de um bebé tão pequeno, que tinha nascido demasiado cedo, eram reduzidas. Um desejo impossível. Mas ver as feições perfeitas da filha transformarem-se em alabastro poucos minutos depois de ter chegado ao mundo era mais do que conseguia suportar.
E agora estava sentada na torre, de corpo quieto e a postos, enquanto ouvia o retumbar dos cascos que se aproximavam, anunciando a chegada dos homens do rei. Nunca tinha ela precisado tanto do seu amado Greville, mas ele não vinha. As ervas húmidas aos seus pés estavam coladas com os coágulos do sangue que tinha perdido. Todo o corpo lhe doía. Queria deitar-se no chão de pedra fria e deixar a vida escapar-se com o sangue que ainda escorria dela. Manchou-lhe as mãos, escurecendo-as onde secou, esticando bem a pele sobre os nós dos dedos.
Tinham de partir em breve, muito em breve. Já se tinham demorado mais do que pretendia e não havia tempo para fazer o que era preciso. A única coisa a fazer era esperar que, ao deixar aquela mensagem, alguém fosse capaz de decifrar o que estava a pedir e responder ao seu apelo. Os seus olhos percorreram o chão contra a sua vontade, atraídos para o sítio onde Mary agora jazia. Estaria a ouvir alguma coisa? Um gemido? Um choro ténue de aflição? Não, era apenas a sua imaginação febril e as gaivotas em redor fustigadas pelos ventos de inverno do lado de fora da janela a chorarem com ela.
De mãos a tremer, começou a escrever: infans filia sub pedibus nostris requiescit…[1]
Por fim, pegando numa flor prensada de açafrão, juntamente com um raminho de alecrim, pousou-as suavemente entre as páginas e fechou o livro.
[1] Uma filha bebé jaz debaixo dos nossos pés.
2019
— Queres que ajude a carregar alguma coisa? — O avô encostou-se à porta do escritório com uma caneca de chá numa mão e um monte de bolachas com creme na outra.
Amber levantou o olhar da caixa empoeirada que estava a esvaziar, empilhando o conteúdo à frente da secretária que rapidamente ficava sem espaço. Tinha o rosto pálido e magro atormentado. As sombras profundas quais nódoas negras debaixo dos olhos refletiam as horas que permanecia acordada à noite, enquanto todos em redor dormiam.
— Avô, não consegues levantá-las. Nem penses nisso! — advertiu-o. Provavelmente as bolachas eram a coisa mais pesada que conseguia atualmente carregar.
— Estás com um ar demasiado pálido. Devias comer mais — comentou.
Amber mergulhou de novo a cabeça na caixa que estava a esvaziar e revirou os olhos. — Estou sempre desta cor. Fica bem com o cabelo ruivo. — Os pais não tinham feito muito uso da imaginação quando lhe deram o nome Amber. Levantando-se, colocou um punhado de velhos guias de Londres em cima de uma pilha periclitante de cópias quase idênticas datadas dos anos 50. — A sério? — Apontou para os guias e ergueu as sobrancelhas. — Estavas a pensar em obter a licença de taxista? — Fez-lhe um sorriso irónico.
Foi a vez de o avô revirar os olhos.
— Não mudes de assunto — disse-lhe, franzindo o sobrolho por debaixo das suas sobrancelhas demasiado grossas, agora quase brancas, mas ainda com vestígios de uma ligeira coloração ruiva.
— Então, preparei uma folha de cálculo para catalogar tudo — continuou ela, como se ele não tivesse falado — e estou a anotar a localização dos livros em casa para que os possas encontrar mais tarde quando decidires o que fazer com eles.
— Isso soa muito eficiente.
— Foi o que combinámos — relembrou-lhe. — As minhas capacidades de arquivista em troca de cama e comida. — E um lugar onde me esconder, deixou ela por dizer. — É bom que fique cá um ano porque desconfio que vou demorar todo esse tempo a registar os teus livros todos. Há milhares deles. Sabia da biblioteca, claro, mas não fazia ideia de que tinhas enchido o sótão com sabe-se lá o quê.
— Bom, é o problema de se ser alfarrabista — defendeu-se ele. — Às vezes, nos leilões, tem de se comprar um lote inteiro de livros quando só se quer um, de facto. Imagino que tudo o que esteja no sótão seja lixo, mas primeiro precisa de ser verificado.
— Hum, lixo é muito provavelmente a palavra certa — comentou Amber, acrescentando mais dois guias à pilha e equilibrando uma cópia esfarrapada d’ O colégio das quatro torres em cima de alguns anuários Jackie. Teve de se controlar para não folhear alguns dos livros que encontrara ou a tarefa gigantesca nunca acabaria. Ao menos havia muito material de leitura para as noites longas e solitárias. Para as horas negras em que era preferível não adormecer, porque depois tinha de acordar e lembrar-se novamente de tudo.
O avô mergulhou uma das bolachas no chá e tentou virar a metade ensopada para a boca. Atualmente, as suas reações não eram tão rápidas como dantes e ouviu-o praguejar entredentes enquanto a bolacha caía de novo no chá, afundando-se para fora de vista. O AVC que o tinha deixado com um coxear impercetível e um ligeiro arrastar das palavras quando estava cansado, tinha feito estragos no braço esquerdo, deixando-o enfraquecido e maioritariamente inútil. E ser esquerdino tornava a deficiência ainda mais acutilante. Depois de uma vida inteira de raciocínio rápido e reações relâmpago, percebia a sua frustração diária quando o novo corpo que habitava lhe falhava.
— E como estás tu? — Hesitava sempre em perguntar, mas ela apagava-se mais a cada dia. As sombras escureciam-lhe o rosto e ele conseguia sem dúvida ver-lhe as veias azuis-claras a cruzarem a testa sempre que ela empurrava as madeixas do seu cabelo curto e fino para trás.
— Ah, estou bem, sabes. — Sabia exatamente ao que ele se referia, mas não estava pronta para falar sobre isso. Ainda não. Sorriu-lhe, embora o estremecimento do canto da boca lhe tenha desmentido a resposta.
— Posso ser velho, mas não sou estúpido — respondeu ele num tom um pouco ríspido demais. — Para além de estares magra como um palito, estás com um ar deslavado. Devias comer comida como deve ser, em vez de só sopa, torradas ou cereais. Ia ajudar, sabes? — A sua boca contorceu-se e ergueu as sobrancelhas. Os olhos enrugaram-se ligeiramente, um pequeno reconhecimento das suas palavras duras. — E sempre que entro na cozinha, encontro chávenas de chá que fizeste, mas não bebeste. O que é que se passa, afinal?
— Não ando a dormir bem. — Encolheu os ombros. — Fazer chá reconforta-me. É uma pequena rotina que posso fazer sem pensar para me ajudar a limpar a cabeça. «Às vezes, mantém os demónios à distância, nem que seja só por uns minutos», refletiu ela em silêncio. — Para ser sincera, não me lembro de os meus hábitos alimentares fazerem parte do nosso acordo. Estou aqui para ter alguma paz e solidão, mas sem chatices, obrigada. — Avançou para outra caixa e começou a atirar o conteúdo para o último canto livre da secretária. Levantou-se uma densa camada de pó cinzento no ar, com uma nuvem de partículas minúsculas de poeira a efervescerem de excitação por terem sido libertadas, dançando à luz fraca do sol que se esforçava por passar pelas janelas imundas. Amber suspeitava que nunca tinham sido limpas nas décadas desde que a avó tinha morrido.
Depois de desdobrar a caixa agora vazia com agressividade a mais, atirou-a para um canto da sala para cima da pequena montanha de cartão igualmente maltratado. O avô observava em silêncio enquanto ela puxava mais uma para si e arrancava a parte de cima, levantando uma mão de cheia de livros e empilhando-os.
— Achei que estares aqui e teres algo com que te distrair… das coisas fosse arrebitar-te, mas ainda não me parece que esteja a acontecer. Talvez… — Ele levantou ligeiramente a mão quando ela abriu a boca para interromper — …estar aqui num local tão remoto não tenha sido boa ideia. Talvez se estivesses com os teus pais, se não queres estar com o Jonathan, fosse melhor para ti? Mais gentil para a tua alma? Às vezes o isolamento em alturas complicadas não é solução.
As sobrancelhas de Amber dispararam até à linha de cabelo.
— Não brinques comigo. Porque é que te escondeste neste casarão velho depois de a avó morrer para gerires o teu negócio à porta fechada? Se bem te lembras, deixaste a mãe com a família da avó e depois fugiste para te vires enterrar no fim do mundo. Por isso, desculpa-me se sigo as tuas passadas. Chama-lhe genética, se quiseres.
Atirou-se para a cadeira de escritório atrás da secretária fazendo-a recuar ligeiramente e tentou não ranger os dentes. A casa estava na família há gerações e fazia parte da sua essência, da sua base. Ecoava com as almas dos seus antepassados ruivos e apenas lhe pareceu natural regressar ali, quando a sua vida foi dilacerada, para se esconder do mundo. Embora amasse os pais, tinham uma relação frequentemente tensa e sentia-se mais próxima do avô. Precisava de estar com ele e na casa naquele momento. Por isso, a última pessoa que esperava que questionasse a sua decisão era o próprio avô.
* * *
Quando Amber se sentou, o avô percebeu que tinha construído uma muralha de livros em cima da secretária em seu redor e que agora estava completamente escondida. Uma barricada atrás da qual se escondia mais uma vez.
— Só porque o fiz, não quer dizer que fosse correto — comentou ele para o vazio onde ela tinha estado. Voltando-se com cuidado, deixando as pernas acompanharem momentaneamente o cérebro, voltou à sala de estar e à corrida das duas e meia em Kempton Park.
Quando teve a certeza de que ele tinha saído da divisão, Amber voltou a pôr-se em pé. Limpou as já familiares lágrimas que tinham começado a cair com a bainha da t-shirt, inclinando o rosto para cima para tentar pará-las, mas era um gesto inútil. Os sulcos estavam-lhe quase permanentemente gravados no rosto, de tantas vezes terem serpenteado até abaixo, para lhe pingarem no queixo pequeno e pontiagudo. Esperava acordar uma manhã com as linhas indelevelmente marcadas nas suas faces para sempre, como tatuagens. Uma mancha visível da sua tristeza, para mostrar ao mundo a pessoa horrível que era, um fracasso. A vida já era suficientemente difícil sem um sermão do avô, o rei das fugas, há sessenta anos escondido naquele mausoléu de casa.
Tinha apenas um ano sabático da universidade durante o qual precisava de resolver a sua vida, de alguma forma. Decidir se ela e Jonathan tinham algo que valesse a pena salvar. O pesar esmagador, agora amigo habitual, pesava-lhe nos ombros enquanto foi até à cozinha para fazer uma chávena de chá que não beberia.
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