Alexandre Herculano
Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066408183
A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.
Der Gedanke Gott weckt einen
furchlerlichen Nachbar auf. Sein
Name heisst Richter.
Schiller.
Tibio o sol entre as nuvens do occidente,
Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne
Vai a hora da tarde!—O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga,
Que á voz da primavera os gomos brota:
O oeste passa mudo, e cruza o atrio
Ponteagudo do templo, edificado
Por mãos duras de avós, em monumento
De uma herança de fé, que nos legaram,
A nós seus netos, homens de alto esforço,
Que nos rimos da herança, e que insultamos
A cruz e o templo e a crença de outras eras;
Nós, homens fortes, servos de tyrannos,
Que sabemos tão bem rojar seus ferros
Sem nos queixar, menosprezando a Patria
E a liberdade, e o combater por ella.
Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e espero
No Deus das almas generosas, puras,
E os despotas maldigo.—Entendimento
Bronco, lançado em seculo fundido
Na servidão de goso ataviada,
Creio que Deus é Deus e os homens livres!
Oh sim!—rude amador de antigos sonhos,
Irei pedir aos tumulos dos velhos
Religioso enthusiasmo, e canto novo
Hei-de tecer, que os homens do futuro
Entenderão; um canto escarnecido
Pelos filhos dest' epocha mesquinha,
Em que vim peregrino a ver o mundo.
E chegar a meu termo, e reclinar-me
Á branda sombra de cypreste amigo.
Passa o vento os do portico da igreja
Esculpidos umbraes: correndo as naves
Sussurrou, sussurrou entre as columnas
De gothico lavor: no orgam do côro
Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.
Mas porque sôa o vento?—Está deserto,
Silencioso ainda o sacro templo:
Nenhuma voz humana ainda recorda
Os hymnos do Senhor. A natureza
Foi a primeira em celebrar seu nome
Neste dia de lucto e de saudade!
Trévas da quarta feira eu vos saúdo!
Negras paredes, mudos monumentos
De todas essas orações de mágua,
De gratidão, de susto ou de esperança,
Depositadas ante vós nos dias
De fervorosa crença, a vós que enlucta
A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.
A loucura da cruz não morreu toda
Após dezoito seculos!—Quem chore
Do soffrimento o Heroe existe ainda.
Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
Envilecidas, barbaras, e servas.
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