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Alexandre Herculano

Poesias


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408183

Índice de conteúdo

POESIAS

POR

A. HERCULANO

LIVRO PRIMEIRO

A HARPA DO CRENTE.

A SEMANA SANCTA.

A VOZ.

A ARRABIDA.

MOCIDADE E MORTE.

DEUS.

A TEMPESTADE.

O SOLDADO.

A VICTORIA E A PIEDADE.

A CRUZ MUTILADA.

LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.

A PERDA D'ARZILLA.

A ROSA.

O MENDIGO.

O BOM PESCADOR.

TRISTEZAS DO DESTERRO.

O MOSTEIRO DESERTO.

A VOLTA DO PROSCRIPTO.

N'UM ALBUM.

A FELICIDADE.

OS INFANTES EM CEUTA.

LIVRO TERCEIRO

VERSÕES.

O SECCAR DAS FOLHAS.

A NOIVA DO SEPULCHRO.

O CANTO DO COSSACO.

O CAÇADOR FEROZ.

O CÃO DO LOUVRE.

LEONOR.

A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.




IMPRENSA NACIONAL




POESIAS

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POR

Índice de conteúdo

A. HERCULANO

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segunda edição








LISBOA
EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS
aos martyres, n.º 73
m dccc lx





LIVRO PRIMEIRO

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A HARPA DO CRENTE.

Índice de conteúdo








A SEMANA SANCTA.

Índice de conteúdo


Der Gedanke Gott weckt einen

furchlerlichen Nachbar auf. Sein

Name heisst Richter.

Schiller.

I.

Tibio o sol entre as nuvens do occidente,

Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne

Vai a hora da tarde!—O oeste passa

Mudo nos troncos da alameda antiga,

Que á voz da primavera os gomos brota:

O oeste passa mudo, e cruza o atrio

Ponteagudo do templo, edificado

Por mãos duras de avós, em monumento

De uma herança de fé, que nos legaram,

A nós seus netos, homens de alto esforço,

Que nos rimos da herança, e que insultamos

A cruz e o templo e a crença de outras eras;

Nós, homens fortes, servos de tyrannos,

Que sabemos tão bem rojar seus ferros

Sem nos queixar, menosprezando a Patria

E a liberdade, e o combater por ella.


Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e espero

No Deus das almas generosas, puras,

E os despotas maldigo.—Entendimento

Bronco, lançado em seculo fundido

Na servidão de goso ataviada,

Creio que Deus é Deus e os homens livres!

II.

Oh sim!—rude amador de antigos sonhos,

Irei pedir aos tumulos dos velhos

Religioso enthusiasmo, e canto novo

Hei-de tecer, que os homens do futuro

Entenderão; um canto escarnecido

Pelos filhos dest' epocha mesquinha,

Em que vim peregrino a ver o mundo.

E chegar a meu termo, e reclinar-me

Á branda sombra de cypreste amigo.

III.

Passa o vento os do portico da igreja

Esculpidos umbraes: correndo as naves

Sussurrou, sussurrou entre as columnas

De gothico lavor: no orgam do côro

Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.

IV.

Mas porque sôa o vento?—Está deserto,

Silencioso ainda o sacro templo:

Nenhuma voz humana ainda recorda

Os hymnos do Senhor. A natureza

Foi a primeira em celebrar seu nome

Neste dia de lucto e de saudade!

Trévas da quarta feira eu vos saúdo!

Negras paredes, mudos monumentos

De todas essas orações de mágua,

De gratidão, de susto ou de esperança,

Depositadas ante vós nos dias

De fervorosa crença, a vós que enlucta

A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.

A loucura da cruz não morreu toda

Após dezoito seculos!—Quem chore

Do soffrimento o Heroe existe ainda.

Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—

Pelo Amigo do povo, assassinado

Por tyrannos, e hypocritas, e turbas

Envilecidas, barbaras, e servas.

...
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